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Afinal, porque precisamos de dormir?
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A neurocientista Verena Senn reafirma aquilo que é unânime na comunidade científica: dormir é fundamnetal para o nosso organismo em geral, ajuda a recuperar mais facilmente de doenças e inclusive, a preveni-las.
 
A especialista do setor do descanso, não tem dúvidas de que, o tempo ideal de sono para um humano ronda as oito horas por noite. Durante o tempo em que dormimos, ocorrem  dois processos no nosso corpo que são responsáveis por regularizar a hora de dormir. Um deles é o nosso relógio circadiano interno, também chamado de ritmo circadiano que, alinhado com a luz do dia e o escuro da noite, nos diz quando devemos descansar. O segundo processo está relacionado com a adenosina, uma substância que acumulamos no cérebro ao longo do dia, aumentando a nossa necessidade de dormir.
 
Quando a concentração desta substância é alta, depois de um dia inteiro acordados, há um bloqueio  na secreção das moléculas, induzindo assim o sono, acrescenta a mesma especialista, evidenciando que, estes dois processos, em conjunto, são os principais responsáveis pelo sono.
 
A necessidade de dormir surge porque durante a noite, o nosso cérebro processa o que aprendemos e as experiências que vivenciamos durante o dia. Vários estudos demonstram, inclusive, que o sono aumenta o conhecimento ou as habilidades que adquirimos. O corpo utiliza o sono para arrumar as memórias e destacar aquelas que são mais importantes para uma parte do cérebro destinada ao armazenamento de memória a longo prazo.
 
Desta forma, quanto mais tempo estivermos acordados, menos eficaz será o armazenamento de novos conhecimentos, realça a mesma especialista.
 
O sono também tem um grande impacto no nosso sistema imunológico., na medida em que, dormir ajuda a recuperar de uma constipação mais rapidamente ou mesmo a evitar que se fique doente. “Dormir é o melhor remédio com a vantagem de não ter quaisquer efeitos adversos”, afirma Verena Senn.
 
Importa ainda recuperar o resumo de um estudo publicado na revista Science no final de 2019 que demonstra os benefícios do sono em camundongos e que, apesar de apresentarem um cérebro distinto do do ser humano, é possível encontrar uma explicação científica para o ato de dormir.
 
Existem provas abundantes de que o sono é uma desconexão da realidade necessária para consolidar a memória, aprender e dar tempo ao corpo para realizar as suas funções de limpeza a nível molecular. A prova de que o sono é essencial é que a sua falta está relacionada com doenças cardiovasculares, neurológicas e à obesidade. A isto se acrescentam as provas de que, quando o relógio circadiano que determina períodos de atividade e descanso em ciclos diários de cerca de 24 horas deixa de funcionar, a logística básica do corpo se altera e dá lugar a uma multiplicidade de doenças incluindo o cancro. Embora o efeito reparador do sono tenha sido estudado em diferentes órgãos, até agora era quase impossível fazer o mesmo com o cérebro, principalmente para entender o que acontece a nível molecular durante as horas de sono.
 
Os dois trabalhos, publicados na Science, fornecem as primeiras respostas a essas perguntas. “Tentamos simular em camundongos o ritmo de vida que os humanos têm”, resume Charo Robles, investigadora da Universidade de Munique (Alemanha) e principal autora dos dois estudos. A equipa analisou a transcrição de proteínas e a fosforilação — processo bioquímico que transporta energia aonde é necessária — no cérebro durante ciclos de 24 horas. Um grupo de animais dormiu livremente — cerca de 12 por dia — e outros eram privados de sono em diferentes momentos do dia ou da noite — quatro horas no total.
 
Os investigadores analisaram neurónios individuais e sequenciaram as moléculas produzidas a cada momento do dia na parte frontal do cérebro, que inclui o córtex cerebral e o hipocampo, epicentros da aprendizagem e da memória.
 
Os resultados revelaram que o cérebro segue ritmos de atividade e repouso muito marcados, nos quais se destacam dois momentos culminantes: o amanhecer e o anoitecer, que coincidem com o início do sono e da vigília nos camundongos, respectivamente, porque são animais noturnos.
 
Na mesma sequência, o trabalho também demonstrou que esses ciclos são completamente alterados se houver falta de horas de sono. Uma das moléculas estudadas é o RNA mensageiro, encarregado de viajar para onde é necessário iniciar o processo de produção de proteínas, por exemplo, neurotransmissores que permitem intensificar a atividade cerebral ou deprimi-la quando é necessário que o cérebro descanse.
 
Segundo a responsável pelo estudo, “o processo de atividade e inatividade é marcado em parte pelo relógio interno que todos possuímos e que determina ritmos circadianos em cada 24 horas, aproximadamente”.
 
Robles explica que, “o que vemos é que o cérebro parece antecipar-se à atividade que terá no dia seguinte e envia as moléculas de RNA mensageiro para as sinapses, as conexões entre os neurónios, responsáveis pelo pensamento, memória e outras funções cognitivas. Uma vez lá, os RNAs iniciam o processo de produção de proteínas com esses picos de atividade concentrados ao amanhecer e ao anoitecer”, detalha.
 
Os camundongos que não dormem o suficiente possuem todos os RNAs no seu lugar, “mas por razões desconhecidas as moléculas não iniciam a produção de proteínas, necessárias para gerar consciência e pensamento durante o dia ou relaxar os neurónios durante o sono”.
 
O segundo trabalho, cuja autora principal é Sara Noya, da Universidade de Zurique (Suíça), ressalta que a falta de sono paralisa a fosforilação que permite levar a energia de onde está para onde é necessária. Os camundongos que não dormem perdem 98% de toda essa capacidade, “um apagão cerebral”.
 
A mesma especialista realça que, “o cérebro de um camundongo e o de um humano são muito diferentes, mas acreditamos que estes resultados confirmam a hipótese de que o sono é essencial para restabelecer a estabilidade neuronal depois de um dia de atividade e na preparação para o próximo”.
 
Fátima Fernandes
 
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