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As crianças precisam de viver a sua idade, não a dos adultos
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É verdade que as crianças de hoje serão os adultos de amanhã, ainda assim, não temos nem de acelerar o processo, muito menos de saltar etapas de desenvolvimento fundamentais para o seu crescimento sadio.
 
Muitos especialistas afirmam que muitas crianças estão a viver como pequenos executivos. Têm um longo dia pela frente, muitos horários por cumprir, passam muito tempo fora de casa e distantes dos seus brinquedos, dos seus pais e do seu mundo pessoal, têm de estar muito atentas e muito focadas para realizarem as suas tarefas com distinção.
 
Passam de atividade em atividade, quase sem darem pela passagem do tempo. O dia começa muito cedo e acaba muito tarde. Se isto já é um problema, ainda temos mais as crianças que “suportam” casamentos falhados, que assistem a discussões a toda a hora entre os pais, crianças que vão dando gritos de alerta porque já não suportam as suas vidas, mas todos andam muito distraídos e ninguém as ouve…
 
Há crianças que não têm tempo, nem espaço para serem crianças. Felizmente vão a uma ou outra festa de aniversário e, no meio do colorido dos balões e da música alta, recordam-se de que podem brincar e apreciar aquilo que é para a sua idade, mas não têm muito mais oportunidades para isso, pois na escola o tempo é cada vez mais concentrado nas atividades letivas, os recreios nem sempre dispõem de equipamentos para brincar, já que o betão tem substituído a terra com que os mais novos se sujavam e deliciavam na escola, as atividades são orientadas por adultos, logo, à falta dos pais, as crianças contactam com uma série de adultos por dia, mas pouco com pares.
 
Naturalmente que, quando se encontram com eles, pouco sabem acerca da relação entre duas pessoas da mesma idade. Como a TV e os jogos também ocupam uma parte do seu tempo, sobretudo quando chegam a casa, imitam o que vêm, sendo que a sensibilidade para o outro é cada vez menor. Já neste ponto apetece-me perguntar onde ficam as emoções destas crianças ou mini robôs? Atrofiadas, guardadas e por desenvolver, seguramente. Estas crianças sem relação com os outros, acabam por não saber lidar entre pares desde muito cedo. Possuem uma grande capacidade intelectual, mas muito pouca emocionalidade que é tão importante para desenvolvermos a capacidade de nos relacionarmos com os outros.
 
Sem intenção, mas os adultos não estão a pensar nos homens e mulheres de amanhã… faz falta uma casa nova, um carro topo de gama, uma ascenção na carreira, mas esquecemo-nos de construir o futuro dos nossos filhos. É verdade que queremos que eles tenham uma boa educação, bom material escolar e isso custa dinheiro, mas e o resto?
 
Às vezes seria melhor terem os ténis sem marca e terem amor e carinho em casa, terem o tempo dos pais… se perguntarmos a uma criança o que ela prefere não tenhamos dúvidas de que é esta opção. Os meninos e meninas estão a crescer depressa demais porque não há espaço para os mais novos neste mundo financeiro exigente. Não há tempo para ser criança, tem de crescer para ser um homem ou uma mulher bem sucedidos, mas Daniel Goleman já expressou a sua preocupação neste modo de educar atual: teremos de ensinar os líderes das empresas a serem emocionais e, já se pensa em jogos de computador que possam facilitar essa tarefa, pois teme-se que tenhamos cada vez mais lideres intelectuais, mas muito pouco sensíveis aos outros, à causa ambiental e aos problemas do mundo.
 
Seria mais fácil reduzir a ambição e assumir que, quando temos filhos, não podemos ter exatamente os mesmos objetivos profissionais que teríamos noutra condição. Temos de dar atenção às crianças, temos de lhes dar tempo de qualidade, temos de brincar com ao mais novos, ajudá-los a desligar do seu dia-a-dia cheio de tarefas e exigências, precisamos de os ajudar a crescer com valores, com emoções, com diálogo, com empatia e, isso consegue-se, mas exige dos pais mais uma tarefa diária para além de todas as outras.
 
No seu livro 15 minutos com o seu filho, Quintino Aires não tem dúvidas de que basta um quarto de hora bem vivido com os nossos filhos para lhes dar muito do que eles precisam para crescerem melhor e mais saudáveis.
 
Para este psicólogo clínico, a adequação da brincadeira à idade da criança, ajuda pais e filhos a desligarem das vidas agitadas que hoje se processam e permitir que ambas as partes desfrutem de bons momentos em conjunto, basta que se aproveite esse tempo para brincar livremente, para conversar, para mostrar afeto, para trocar experiências. No seu livro este autor dividiu as etapas de desenvolvimento e qual a melhor forma de os pais se adequarem à brincadeira, vale a pena seguir estes conselhos de quem percebe e é capaz de mostrar que não é assim tão difícil ter de tudo um pouco, é preciso é que se saiba o que se está a fazer, que se tenha uma linha de orientação para a vida atual.
 
Nos seus espaços televisivos, Quintino Aires tem demonstrado a sua preocupação com o desenvolvimento dos mais novos nesta sociedade exigente recomendando também que os pais procurem informar-se acerca das melhores estratégias a adotar para que a relação entre pais e filhos seja produtiva para ambas as partes. Os pais também se desligam do seu quotidiano agitado se se dedicarem aos filhos 15 minutos por dia, antes do jantar ou antes de ir para a cama, é tudo uma questão de disponibilidade, de estar atento às novas exigências e de os pais perceberem que têm um papel fundamental na educação dos filhos.
 
Os mais novos adoram agradar aos pais, verem-nos como exemplo, imitarem-nos, para isso, é preciso dar boas orientações e claro, estar presente, permitir que os mais novos tenham mais contacto com crianças da sua idade dentro e fora do espaço da escola. Possibilitar atividades em família, com amigos onde todos se possam divertir e aprender o valor das relações humanas. Isto é permitir ser criança, ser adulto e zelar para que as crianças cresçam num ambiente mais harmonioso e sadio. Em caso de dúvidas, os pais podem e devem recorrer à ajuda de quem entende mais sobre o assunto, não podem é ficar fechados no seu mundo à espera que os filhos cresçam infelizes.
 
Fátima Fernandes
 
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