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Como lidar com “crianças- adultas”?
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Muito se fala dos comportamentos das crianças de hoje, a ponto de não se perceber muito bem o que é permitido e o que é condenável em termos sociais.
 
Na realidade, o que diferencia estas duas posições é a educação de quem as avalia, pois se as crianças são analisadas por quem teve um percurso saudável, naturalmente que existe uma posição, quando são observadas por pessoas que tiveram um percurso desviante, certamente que a sua posição se situa muito mais desse desvio ou margem.
 
Seja de que forma for, os pais de hoje são o reflexo dos pais de ontem. Quer isto dizer que, temos muita gente sem tempo e oportunidade para ser criança, pessoas que cresceram depressa demais e que não sabem o que são as diferentes etapas de desenvolvimento de que tanto se fala nos nossos dias. 
 
Temos pessoas que não sabem como se tornaram pais e mães pela simples razão de que ainda não compreenderam o que é ser filho, tal como temos muita gente que desvaloriza os professores pelo simples facto de ter recebido uma formação pouco correta e, muito baseada na violência física e psicológica. Por norma, estes pais estão sempre “contra a escola e os professores” até que percebam a importância do ensino formal e que, muito se alterou nos nossos dias.
 
Muitos dos pais de hoje são o produto de um antes ou pós 25 de Abril; de um tempo que contrastava muito com o que vivemos atualmente.
 
Temos quem tivesse conseguido compreender a mudança dos tempos e quem continua a negá-la, tal como é fácil encontrar o saudosismo de quem não sabe o que é a liberdade e deseja o regresso da ditadura em Portugal.
 
Quando falamos em crianças fora de tempo, estamos a referir-nos aos pais de hoje que ainda são crianças porque nunca tiveram essa oportunidade no tempo devido.
 
Assistimos a pais que não sabem educar porque não compreenderam a sua educação baseada no autoritarismo. Não sabem ser autoridade porque não encontraram as diferenças entre esta e a imposição e, no meio disto tudo, temos bons exemplos de educação e outros que nem se percebe muito bem como se pode falar com os pais para explicar que algo está mal, pois rapidamente não sabem o que fazer e entram em oposição com os educadores e professores.
 
Não existe uma receita para o problema que terá de ser ultrapassado em gerações e não num só ano letivo, mas uma coisa é certa: temos de pensar mais na educação dos pais para que se possa apostar melhor na dos filhos. Enquanto não chegarmos aos pais com o conhecimento, não podemos esperar grandes progressos nas gerações futuras.
 
É verdade que a maioria dos pais já pensa se deseja ou não ter filhos, já consegue delinear uma relação amorosa, já consegue saber o que são as necessidades básicas e daí por diante, mas ainda há um longo caminho a percorrer, pois basta ver o aumento da obesidade infantil para compreender a falta de uma alimentação equilibrada, a pouca afluência dos pais à escola para compreender a falta de empatia entre pais e educadores e o numero reduzido de crianças em atividades educativas e culturais para compreender que os desenhos animados ainda alimentam o tempo livre de muitas crianças em lares portugueses.
 
Falar em crianças fora de tempo, é apostar em adultos que não sabem compreender o que é essencial para as crianças porque nunca se colocaram nesse lugar, é referir crescidos com mentalidades muito imaturas e sem capacidade para compreender a vida de uma forma mais alargada, sem esquecer a doença mental que, muitas vezes resulta de tudo isto.
 
Por isso, se queremos ter um país mais inteligente, maduro e equilibrado, onde se possa exigir mais cidadania de miúdos e graúdos, temos de apostar na escola para a vida e ensinar tudo como se muito lhes faltasse. Ensinar o essencial para que se possa ambicionar voar mais alto e desejar mais e melhor educação.
 
É essencial ter em conta que, o ser humano aprende ao longo de toda a vida e não existe uma idade específica para que altere um comportamento ou uma atitude, mas é preciso querer; é preciso mostrar às pessoas a importância de fazer a mesma coisa de uma forma diferente para que se possa ambicionar uma sociedade mais plural e livre. Só com cidadãos empenhados no seu próprio conhecimento é que poderemos produzir uma sociedade aberta a todos, em todas as idades.
 
Só quando se percebe a necessidade de saber mais é que se motiva para a aprendizagem e, tal ocorre nas crianças que querem aprender a ler e a escrever, os adultos têm de sentir esse desejo de saber mais para que possam educar melhor e exercer a sua cidadania em pleno. Não nos podemos esquecer que, “A educação é um direito de todos os homens. Alguém condenado à ignorância, é certamente alguém que perdeu o seu direito à vida”.
 
No nosso dia-a-dia, encontramos muitas pessoas nos mais variados lugares que não apresentam o mínimo de preparação para compreender aquilo que lhe é transmitido, precisamente devido a essa falta de maturidade e de conhecimento que lhe estão associadas.
 
É fundamental compreender que não se pode sublimar este facto, mas sim, investir de uma forma clara na formação destes adultos que não conseguem resolver os problemas mais simples do seu quotidiano, pois o que torna as pessoas mais rudes, é mesmo o desconhecimento face à realidade. 
 
Sabendo analisa-se, pensa-se e atua-se com mais confiança. O desconhecido assusta, pelo que temos de dar a conhecer o mais possível e fazer entender que, sem praticar a leitura ao fim de pouco tempo, perde-se essa habilidade, sem tentar analisar passamos por um papel e não o conseguimos descodificar, se utilizarmos uma linguagem mais erudita com pessoas que a desconhecem, certamente que a nossa mensagem não passa.
 
Temos de assumir que, as crianças fora de tempo, apresentam uma mentalidade infantil num corpo adulto e que não são capazes de fazer frente aos desafios e oportunidades dos adultos.
 
Fátima Fernandes
 
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