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É possível viver sem máscaras?
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Este tema tem servido de inspiração para inúmeras publicações, apontamentos e documentários, sobretudo pela dificuldade que encerra, e que faz despertar, para viver sem máscaras numa sociedade cada vez mais consumista e sem preocupações com a fragilidade humana.
 
Para a maior parte dos entendidos na matéria, é possível viver sem máscaras, mas é preciso aceitar o medo, a tristeza, a revolta, a alegria e a solidão como fases temporárias, como ingredientes da sensibilidade humana que dão lugar a valores elevados.
 
Viver sem máscaras implica uma aceitação pessoal muito profunda e uma seleção apurada das pessoas com quem se convive. Implica ser capaz de renunciar a algo em prol de um bem maior, tal como traduz ter menos e de maior qualidade.
 
Viver sem máscaras é o mesmo que dizer que se tem menos pessoas em seu redor, muitos menos bens materiais, mas muito melhores sensações e pessoas mais livres e felizes, pelo que, naturalmente que este modo de vida implica alterações profundas numa sociedade de todo apostada no prazer através do consumo, do poder, da supremacia face aos outros, da competição desenfreada e daí por diante.
 
Não é possível viver sem máscaras e querer dar resposta a tantas exigências sociais que implicam a sua utilização.
 
Viver sem máscaras é algo de simples, é a coragem de libertar o mais profundo que existe dentro de nós a quem é capaz de aceitar, respeitar e corresponder, pelo que, talvez não é por acaso que nos sentimos mais compatíveis com umas pessoas do que com outras; é porque sentimos que os seus sentimentos e valores vão ao encontro daquilo que pensamos e defendemos, enquanto que, com outras, ocorre precisamente o contrário.
 
Aos poucos, temo-nos habituado a silenciar a dor com fármacos, sendo que, as crianças e os idosos são os seus principais alvos, pois a geração ativa não tem tempo para as suas fragilidades, muito menos para pensar nas razões que conduzem à apatia, hiperatividade ou tristeza. Prescreve-se, toma-se e espera-se para ver os resultados, mas dentro de nós, sabemos que estamos a silenciar aquilo que é mais puro, que é legítimo e que nos caracteriza enquanto seres humanos, daí se procurar cada vez mais formas de distração que, não mais são do que fugas à realidade, “para esquecer” aquilo que nos angustia.
 
E continuamos “a viver uma vida dupla ou múltipla neste labirinto da modernidade, presos, constantemente confrontados com as escolhas, a necessidade de ousar agir ou de crer, de se desesperar ou deixar de acreditar”, como afirma o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard.
 
O mesmo filósofo recorda que, ninguém consegue ser feliz com máscaras e que, até o uso destas tem por base mostrar uma felicidade que não existe, que não se sente, mas que nos aflige.
 
Perante esta realidade, cabe a cada um decidir o rumo que quer dar aos seus sentimentos e pensamentos, compete selecionar os grupos de pertença e se, efetivamente, a vida com máscaras lhe faz sentido e qual a melhor posição a tomar, pois apesar de integrarmos um todo que é a sociedade, cada um é um ser adulto, inteligente, maduro e responsável a ponto de poder fazer as suas escolhas em prol da sua felicidade.
 
Já dizia Ralph Waldo que, “a honestidade, sinceridade, verdade devem existir e ser uma constante nas nossas vidas, seja no confronto com os outros seja, sobretudo, connosco próprios. Este exercício de interioridade, de prospeção do eu até às águas freáticas do seu poço exige que estejamos conectados à verdade, à nossa responsabilidade, confrontando-nos com as nossas fragilidades, medos, crenças falsas, convicções erradas”.
 
Fátima Fernandes
 
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