Numa cidade onde o turismo despertou mais tarde do que noutros pontos do Algarve, os restaurantes internacionais limitavam-se, há uma década, a pizzarias ou à comida chinesa, cenário que tem vindo a mudar, acompanhado, também, pelo crescimento de restaurantes mais sofisticados e focados em menus sazonais.
Com o aumento do número de turistas, o concelho de Faro passou, também, a ter mais restaurantes: se em 2014 tinha 141 restaurantes registados como tradicionais (com serviço de mesa), em 2024 esse número aumentou para 221, segundo dados fornecidos à Lusa pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).
Chegada a Portugal do outro lado do Atlântico, em 2004, a argentina Josefina Cardeza começou por se estabelecer em Lisboa, onde teve dois restaurantes, mas, no final de 2019, pouco antes de rebentar a pandemia de covid-19, abriu o Los Locos em Faro.
Apesar das dificuldades iniciais, “Ju”, como é conhecida, não duvida que, após a pandemia, a cidade beneficiou de uma reviravolta: começou a abrir-se mais ao turismo e surgiram muitos novos restaurantes, animados pelo aumento de visitantes.
Com um espaço pequeno, a empresária de 50 anos não nega que se tivesse aberto o restaurante em Vilamoura ou em Almancil seria mais fácil, pois os farenses ainda estão a aprender a ter cultura gastronómica, mas é justamente esse desafio que a inspira.
“Dá-me prazer que as pessoas tenham novas experiências”, refere, sublinhando que o conceito do restaurante se funde com a sua personalidade: “é como comer na minha casa e ir contando histórias. Aqui tudo conta uma história”, conta.
Poucos anos mais tarde, conquistado pelo clima, qualidade de vida e matéria-prima que encontrou no Algarve, Sean Marsh decidiu converter uma antiga marisqueira de Faro – cidade com a qual já tinha uma ligação emocional -, num ‘bistro’, e assim nasceu o ATO.
O norte-americano, agora com 40 anos, mudou-se para a Europa em 2011 e escolheu Faro para se estabelecer, ilustrando que, se tivesse um restaurante em Lisboa, teria de “estar aberto ao almoço e ao jantar, sete dias por semana, para conseguir pagar a renda”.
Assim, optou por apostar num mercado de menor dimensão porque, considera, é “mais arriscado” abrir negócios em cidades maiores: “Prefiro ser o capitão de um barco mais pequeno”, graceja o ‘chef’, que abriu o restaurante em 2022.
No mesmo ano, Sky Visser abriu o Céu, um restaurante que junta a gastronomia asiática e da América do Sul, inspirada nos sabores que experimentou desde sempre: filho de pai holandês e mãe indonésia, nasceu e cresceu em Curaçau, nas Caraíbas.
Atualmente com 27 anos, o ‘chef’ chegou ao Algarve também influenciado pelos pais, que se mudaram para a região quando se reformaram, e depressa se apaixonou pelo estilo de vida, invernos amenos e qualidade dos produtos.
“Precisava de um sítio não muito frio, com um estilo de vida mais calmo. Faro tem muito potencial, é quase uma cidade esquecida, porque o ‘boom’ do turismo chegou aqui mais tarde do que noutros pontos do Algarve, o que foi bom para a cidade”, considera.
Apesar de a capital algarvia ser a cidade com o maior número de habitantes do distrito, durante muito tempo o seu aeroporto funcionou apenas como porta de entrada para milhares de turistas.
O primeiro hostel na cidade abriu em 2011 e foi só em 2021 que Faro ganhou o seu primeiro hotel de cinco estrelas.
Este ano, pela primeira vez, um restaurante em Faro - o Alameda, do ‘chef’ Rui Sequeira -, foi galardoado pelo Guia Michelin Portugal 2026 com uma estrela, que distingue uma ‘cozinha de grande nível, compensa parar’.