Sociedade

Habitação: Uma centena de pessoas desfilam em Faro pelo direito à casa própria

Foto - José Sena Goulão (Lusa)
Foto - José Sena Goulão (Lusa)  
Cerca de uma centena de pessoas desceram hoje a avenida 5 de Outubro, em Faro, aproveitando depois um microfone aberto para clamarem pelo direito a casa própria numa região especialmente afetada pela crise na habitação.

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Ao som de “Os Vampiros”, de José Afonso, o desfile pelo direito a habitação arrancou avenida abaixo pelas 15:30, meia hora depois do previsto, e o percurso de 900 metros, acompanhado pela polícia, demorou cerca de meia hora a ser cumprido.

Enquanto algumas pessoas se juntavam ao protesto ao longo do caminho, ouviam-se cânticos de protesto contra o primeiro-ministro – “Montenegro, presta atenção, as tuas casas vão virar ocupação” –, mas também outros pedidos.

“Teto, chão, direito a habitação” e “Queremos casas para morar, e não para especular” eram alguns dos alertas deixados pela centena de pessoas que se juntaram nesta manifestação pelo direito à habitação promovida pelos coletivos que têm organizado a acampada de Faro.

Nas tarjas exibidas pelos presentes, liam-se mensagens como “Eles compram tudo e não deixam nada”, “Não faltam direitos, falta cumpri-los”, ou “Mais habitação, menos especulação”.

Após o desfile, que terminou na Praça da Liberdade, e depois de lido um manifesto que as várias acampadas têm preparado, durante cerca de uma hora, mais de uma dezena de pessoas aproveitaram o microfone aberto para discursar.

Muitos partilharam palavras de ordem contra o governo, abordaram o contexto de crise, e contaram histórias pessoais das dificuldades em pagar renda ou casa própria.

Entre as dezenas de discursos, também houve quem se afirmasse “privilegiado por ter casa”, negando a contradição de estar no protesto porque “todos têm direito a casa própria”.

Sebastião Florêncio, membro da organização da acampada de Faro, disse à Lusa que esta é a pior crise “desde o 25 de Abril”, já que as pessoas “não têm capacidade para viver, simplesmente não têm, trabalham e nem conseguem ter dinheiro para comer”.

“Isto é um caso de calamidade, isto é uma emergência que temos no nosso país e que ainda mais grave se torna quando nos tentam descredibilizar”, declarou.

Afirmando ter “sorte” por conseguir “ter uma casa”, Sebastião Florêncio ressalvou que não tem contrato e é obrigado a “sair três meses durante o verão, o que no Algarve é habitual”.

A crise na região algarvia “é um problema ao quadrado” e agrava-se com “a exorbitância do mercado imobiliário e da especulação imobiliária”, sublinhou.

O fim dos despejos, a reversão da lei de arrendamento e a expropriação do património devoluto são algumas das medidas defendidas pelos promotores da manifestação em Faro.

Na Praça da Liberdade, onde os manifestaram continuaram reunidos, vai realizar-se ainda hoje uma assembleia popular, para recolher contributos para propostas a apresentar ao Governo, e também preparar próximas ações de luta.

Entre manifestações e as denominadas acampadas, com centenas ou milhares de participantes, os atuais protestos contra a crise na habitação tiveram início no Porto a 10 de outubro e expandiram-se a Lisboa, mas já motivaram também concentrações noutras cidades, dias depois de a aprovação parlamentar da nova lei do arrendamento, agora em discussão na especialidade.

As iniciativas, promovidas por movimentos cívicos e difundidas pelas redes sociais, reivindicam medidas que respondam à crise no setor, o controlo dos preços dos bens essenciais e dos combustíveis e defendem impostos sobre os lucros extraordinários das grandes empresas do setor bancário.

A 15 de outubro, o movimento que protestava no Porto, com uma acampada, denunciou uma carga policial violenta durante a madrugada que causou ferimentos em 39 dos participantes, dois dos quais ficaram em estado grave, e em um polícia. Em Lisboa, as autoridades removeram dezenas de tendas do Rossio ao início da manhã de terça-feira e detiveram 55 manifestantes, que serão presentes a juiz dia 27.