Os investigadores afirmam que assistir excessivamente a vídeos curtos pode causar sequelas no cérebro que se prendem com a diminuição da atenção, da memória e do controlo dos impulsos.
Se o impacto é negativo nos adultos, o alerta recai sobre as crianças que, por estarem numa fase importante do seu desenvolvimento, acabam por ver reduzidas as suas habilidades cerebrais quando expostas a este tipo de hábito por longos períodos de tempo. E o problema é que os vídeos curtos estão cada vez mais acessíveis a crianças e adultos, essencialmente através das plataformas digitais e nas redes sociais, alertam os investigadores.
Os cientistas explicam que os vídeos curtos são distintos do entretenimento tradicional, uma vez que entregam estímulos rápidos e constantes, mantendo o cérebro num estado de excitação quase permanente.
O problema está no sistema de recompensa. Cada vídeo liberta pequenas doses de dopamina, o neurotransmissor do prazer, criando um ciclo de gratificação imediata muito parecido com o de comportamentos viciantes. Com o tempo, o cérebro passa a “preferir” estímulos rápidos, perdendo a tolerância para tarefas mais longas, profundas ou que exigem esforço mental, como estudar, ler ou até manter uma conversa prolongada.
Os cientistas também apontam alterações em áreas ligadas à tomada de decisão e ao autocontrolo, como o córtex pré-frontal. O resultado pode ser uma redução da capacidade de concentração, aumento da impulsividade e dificuldade em reter informações, fenómeno que alguns investigadores já chamam de “demência digital”.
Segundo os especialistas na área da psiquiatria e da neurociência, «o problema não é que o cérebro deixe de funcionar, mas sim que esteja mais estimulado para um tipo de conteúdo superficial e acelerado».
À semelhança do que acontece com consumos aditivos, também o recurso excessivo aos vídeos curtos cria uma dependência que só se ultrapassa com uma mudança de hábitos diários, como controlar o tempo diário a que estamos expostos a esses conteúdos, diversificar as atividades e tarefas ao longo do dia e promover momentos de lazer que incentivem o foco, desafiem e estimulem a memória e o controlo de impulsos, especialmente relações interpessoais, convívio, diálogo e a manutenção de uma vida social ativa. No caso particular das crianças e jovens, «torna-se imperativo controlar o tempo de uso dos ecrãs, de modo a que os mais novos tenham oportunidade de realizar outras tarefas ao longo do dia que estimulem a criatividade, o prazer prolongado, a atenção e a memória», enfatizam os cientistas.
Refira-se que o assunto tem motivado diversos estudos, sendo que as principais conclusões se resumem:
"O consumo compulsivo de vídeos curtos tem um impacto negativo no desenvolvimento cognitivo, podendo causar falta de concentração, ansiedade social e dúvidas sobre si próprio", explicou em declarações à Agência Lusa Wang Wei, académica da área da Psicologia Educacional da Universidade de Macau (UM), autora do estudo "Dependência de vídeos curtos, envolvimento escolar e inclusão social entre estudantes rurais chineses".
"Esta conceção do vídeo curto pode ser particularmente perigosa para as crianças", alertou a investigadora. "A nossa investigação indica uma correlação direta: quanto mais os estudantes consomem vídeos curtos, menos se envolvem com a escola", prosseguiu Wang.
Wang argumenta que, embora as necessidades psicológicas fundamentais das crianças devam ser satisfeitas 'offline', a arquitetura das plataformas de vídeos curtos, com algoritmos personalizados e funcionalidades de interação social, satisfaz direta e subtilmente essas mesmas necessidades. Esta satisfação paralela, sugere a investigação de Wang, "leva potencialmente a um uso excessivo e ao vício".
"A natureza estimulante e de ritmo acelerado dos vídeos curtos torna-os altamente divertidos para os alunos", acrescentou ainda a investigadora.
Anise Wu Man Sze, professora de Psicologia na Faculdade de Ciências Sociais da UM e autora do estudo "A relação das componentes afetivas e cognitivas no uso problemático de vídeos curtos", acrescenta às conclusões de Wang as questões relacionadas com a sobre-estimulação das crianças, que prejudicam ainda mais o desenvolvimento cognitivo saudável.
Os vídeos curtos captam a atenção de todos precisamente porque "estão logo ali à mão e são gratuitos", sublinha Wu em declarações à Lusa. As pessoas podem aceder a quantidades vastas de vídeos curtos "a qualquer hora, em qualquer lugar". Ora, esses comportamentos de dependência têm frequentemente origem num "propósito funcional", explicou.
"Temos de aumentar a consciencialização, sobretudo se o uso começar a afetar a vida quotidiana, levando ao sacrifício do tempo em família, à negligência do sono, ou a pessoas a navegarem em momentos inadequados, como durante as aulas ou a conduzir, pondo em risco a própria pessoa ou outras", afirmou à Lusa.
Para além do design das plataformas, utilização de algoritmos e natureza dos próprios vídeos rápidos, Wu identificou outros fatores que desencadeiam a relação de dependência.
Segundo a investigadora, o 'stress' diário, mas também o ambiente e até a predisposição genética contribuem para comportamentos de dependência, detalhou no estudo. "Na verdade, uma das razões primárias para a dependência, que resulta nestes comportamentos compulsivos, é a do escape a realidades desagradáveis, pressões ou situações que as pessoas desejam evitar confrontar", explicou Anise Wu, apelando à consciencialização dos efeitos da visualização de vídeos curtos.
Quanto a intervenções junto das crianças, segundo Wang Wei, "é muito importante" satisfazer as suas necessidades emocionais, cultivando ao mesmo tempo a literacia digital e competências de autorregulação, "em vez de nos limitarmos a tirar-lhes o telemóvel".