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Não existe um “casamento de sonho”, mas o sonho de concretizar o que se deseja
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Os anos passam e, o amor romântico parece permanecer na mente de muitas pessoas de várias idades.
 
Tal acontece pela educação, pelo conjunto de crenças e valores que se foram instalando e dando forma a um conjunto de ideias que não corresponde à realidade.
 
A expressão “um casamento de sonho” que também se divulga nos meios de comunicação social, dá a entender que, se conseguirmos encontrar uma pessoa com as características exibidas na publicidade, com o estilo que as revistas propõem, facilmente temos um casamento feliz e bem-sucedido, mas tal nunca correspondeu, nem irá corresponder à realidade e, quem acreditar nisso não só está a perder a oportunidade de viver um amor, como se está a candidatar a uma tremenda desilusão.
 
Em meu entender, a beleza exterior pouco interfere no sucesso de uma relação. O mesmo se passa com o plano financeiro e daí por diante. O que importa numa relação é o que a pessoa significa para nós e o que nós representamos para ela. É a sintonia, a empatia, a capacidade de entendimento que existe entre duas pessoas que as leva a construir um projeto de vida em comum.
 
Muito mais do que o dinheiro de uma pessoa, o que importa são os seus valores, a sua forma de estar na vida, as suas qualidades, as suas capacidades, o seu potencial de construir o que pretende. Por conhecermos uma pessoa abonada financeiramente, isso não quer dizer que essa pessoa seja obrigatoriamente interessante para nós. O mesmo se passa com um executivo que nos pisca o olho, mas que pouco nos diz em termos afetivos.
 
Existe grande discussão em torno do amor e dos casamentos de sonho, mas penso que a questão é muito mais simples do que parece. O despertar por outra pessoa acontece naturalmente, o saber mais acerca dela, do que tem e do que faz só acontece a seguir. Nesse sentido, é muito mais importante valorizar o que sentimos num primeiro contacto com alguém e identificar aquilo que sentimos do que nos preocuparmos em procurar alguém que se encaixe num modelo de casamento que nos foi dado na infância com os príncipes e as princesas.
 
O primeiro despertar é emocional; ocorre através da nossa intuição e inteligência amorosa. Depois, a razão autoriza ou não esse sentimento. Perante esta simplicidade, temos mais ou menos curiosidade em conhecer a outra pessoa. Se o interesse for mútuo, mais facilmente acontece o encontro, se não for, pode demorar mais algum tempo ou pode nem acontecer.
 
Não temos de nos prender ao amor para a vida, pois se uma pessoa não gostou de nós, esse sentimento também não cresceu e estamos prontos para novas descobertas. Quando a sintonia acontece, provavelmente podemos desenvolver algo com essa pessoa. O que nos afasta do casamento de sonho é que, muitas vezes pensamos que a pessoa que nos desperta num primeiro momento, é a pessoa certa para nós, mas ao convivermos um pouco mais com ela, ficamos a saber que não passou de um “borbulhar” que se perdeu quando se conheceram aspetos da sua personalidade.
 
Uma pessoa pode ser muito bonita e interessante e ser muito difícil de suportar no quotidiano. Já imaginou não conseguir conversar com aquela pessoa que a despertou naquele momento? E se a pessoa não mostrar que gosta de si e é você quem tem de lhe adivinhar os pensamentos? E se nunca pagar a conta do restaurante? Pois é, é muito complicada a tarefa de gerir o que se sentiu num primeiro encontro com a nossa capacidade de alimentar um sentimento quando se percebe que a pessoa não corresponde ao que pensávamos. Não há erro nenhum nisso. Ao conhecermos melhor a pessoa percebemos que ela se afasta daquilo que somos e que pretendemos, então não vale arrastar a relação. Se ficássemos com todas as pessoas que nos chamaram a atenção em algum momento de vida, certamente que mudaríamos de parceiro com muita regularidade! É importante saber dizer “não”, esta pessoa parecia-me interessante, mas ao conhece-la melhor, percebo que não se encaixa comigo. Pelo contrario, também acontece que, num primeiro encontro haja a vontade de marcar o segundo, o terceiro e que o namoro aconteça. É só por isso que não existe uma teoria única para o amor e os relacionamentos. Há pessoas que se apaixonaram á primeira vista e que são muito felizes com o seu parceiro e outras que demoraram mais tempo e são igualmente bem-sucedidas na relação.
 
Há pessoas que experimentam inúmeras relações e encontram a pessoa amada e outras que num primeiro namoro encontram o casamento para a vida, mas nada disso quer dizer “casamento de sonho”, mas sim capacidade de pensar, conversar com o outro e concretizar, já que não existe outra forma de viver uma relação duradoura e feliz.
 
“Casamento de sonho” é uma imagem romântica que, vivida a sério, nos pode levar para a frustração, pois tal não passa mesmo de um sonho. Todos temos direito a sonhar, então idealizemos o que queremos, mas fazendo algo nesse sentido. Eu sinto-me bem com aquela pessoa, ela está bem comigo, então vamos aproveitar muito bem o nosso tempo juntos, vamos fazer planos em conjunto e concretizar muitas coisas juntas. Basicamente temos de entender que o casamento não nos é dado como um presente, uma carta fechada ou o que lhe queiramos chamar, mas sim, temos oportunidade de conhecer uma pessoa, de desenvolver uma relação com ela e casar se isso for do agrado dos dois.
 
Precisamos de retirar “o véu” do nosso pensamento, já que esta imagem de relacionamento nos impede de ver a realidade e de sermos muito felizes com a pessoa que temos. Não faz sentido andar sempre à procura do par ideal quando nós somos uma pessoa e o outro é igual a si mesmo. O par ideal é aquele que se entende, que se respeita, que se ama, independentemente da cor do cabelo, da conta bancária, da profissão e de qualquer outro requisito. Nós é que fazemos da outra pessoa a ideal para nós quando nos damos bem com ela e sentimos a devolução desse sentimento e respeito.
 
O casamento de sonho existe para quem retira todas as crenças passadas e diz a si mesmo que consegue viver algo com que sempre sonhou: uma relação entre duas pessoas adultas, que se amam e respeitam mutuamente e que têm um plano de vida conjunto.
 
Fátima Fernandes
 
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