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Não se desculpe por dizer a verdade!
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Vivemos numa sociedade de “faz de conta” e de comportamentos “socialmente corretos”, sem que nos reste muito tempo para os outros e, acima de tudo, para a verdade daquilo que somos e daquilo que pensamos.
 
É uma sociedade cada vez mais fechada em si própria, com pouco espaço para as palavras, para os afetos e para tudo o que nos diferencia uns dos outros e, ao mesmo tempo, nos particulariza e nos torna mais livres e felizes.
 
Sem nos darmos conta, sofremos uma asfixia gigantesca para conseguirmos suportar o tal “faz de conta”, pois até que entremos no esquema e consigamos imaginar que deixamos de sentir, o nosso organismo ressente-se e sofre profundamente.
 
Para a psicologia, as coisas são simples, temos de dizer o que sentimos e pensamos, ainda que possamos escolher as palavras e tenhamos de lutar um pouco para que os outros se habituem a essa nossa forma de estar. Não temos de ser agressivos, mas jamais deveremos omitir aquilo que sentimos. E isso é uma marca pessoal, como qualquer outra.
 
Dizer a um amigo que algo correu mal, não é um motivo de rejeição numa qualquer sociedade mais ou menos evoluída. Muito menos ter de pedir desculpa quase por existir, só porque se gosta de alguém, só porque se tem medo da perda, só porque se perdeu o hábito de falar de sentimentos, não!
 
Manuel Camargo não tem dúvidas, “não temos de nos desculpar por termos alertado o amigo sobre as atitudes que fazem dele uma pessoa pior, por ter colocado limites ao colega de trabalho, por ter falado aquilo que o seu coração lhe pedia,  por ter dito “amo-te” ou por ter falado sobre algo muito pessoal e que a maioria das pessoas já não está preparada para ouvir”.
 
Vivemos num mundo de aparências, feito por amizades frágeis e amores fracos, logo ser verdadeiro tornou-se quase como que uma ofensa.
 
Na prática, “ou andamos de acordo com a onda hegemónica do lugar comum, subjugando-nos ao que a maioria dita como normal, ou sofreremos a incompreensão, muitas vezes violenta, de muitos. Haja o que houver, não se furte de dizer a verdade”, sublinha o mesmo psicólogo.
 
Naturalmente que, numa sociedade sem tempo para pensar sequer que, “os amigos não servem apenas para beber cerveja, mas também para se ajudarem, enquanto seres humanos decentes”, muitos são os medos que se nos colocam face ao que devemos ou não dizer aos que consideramos mais íntimos ou com quem vivemos algum tipo de relação”.
 
O sentimento de culpa resultante de algo que se fez ou disse, resulta precisamente desta falta de hábito que se tem vindo a instalar de só dizer o que parece conveniente ou muito correto para agradar alguém, mas no fundo, é de um conjunto de hipocrisias que falamos; de uma sociedade de gente fingida que sofre em silêncio, mas que sorri só para agradar, só para manter o “status” ou para se gabar que é amigo de uma pessoa importante.
 
É bom ter em conta que, “sempre vão existir pessoas de quem nós gostamos e que nos devolvem esse sentimento, tal como sempre vamos conhecer quem não goste de nós, mas isso não é um motivo suficiente para silenciar uma opinião, um conselho ou um sentimento dito de forma mais ou menos aceitável”.
 
É verdade que há formas de dizer as coisas, tal como nem sempre conseguimos encontrar a palavra ou a frase que o outro esperava. É um facto que vão sempre acontecer mal entendidos, tal como nos confrontaremos com pessoas que não nos interpretam bem, mas até isso faz parte da aprendizagem e da evolução humana. Não podemos de forma alguma aceitar tudo só porque temos medo de represálias ou porque um colega “nos possa fazer a folha” com o chefe ou patrão. Temos de ter coragem também para sentir qual é o melhor momento para falar, mas também a honestidade com que nos dirigimos aos outros, sob pena de chegarmos ao ponto de nos desculparmos por dizer a verdade ou por sermos quem somos.
 
Manuel Camargo sublinha: “não se desculpe por ter dito aquilo que o seu coração pedia, mesmo que tenha sido algo antipático, mas lembre-se de que, podemos ser firmes sem ofender”, tal como podemos melhorar o nosso discurso, elaborando um pouco mais as palavras.
 
O mesmo especialista reforça que, “todos nós temos de ter coragem para falar, sob pena de ser cada vez maior o nó que sentimos na garganta”.
 
“Temos de deitar para fora aquilo que nos desagrada (por mais que nos calemos diante de algumas situações), necessitaremos por para fora esse nó que engasga o nosso lado emocional, ou adoecemos. O simples facto de só engolir, acaba por nos conduzir à revolta e ao mau-estar que é muito pior”.
 
Para finalizar, Manuel Camargo recorda, “todos sabemos – de tanto ouvir e ler sobre – o quanto a verdade harmoniza, acalma, elucida, fortalece. Tudo o que perdermos em razão de termos sido verdadeiros, acaba por ser uma bênção no que se refere ao bem-estar daí resultante. Por isso, é bom termos presente que, ‘o que nos alimentará a esperança e a certeza amorosa sempre será aquilo que vier de forma transparente’. O resto dispensa-se por si só”.
 
Fátima Fernandes
 
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