A medicina e a neurociência modernas defendem que o hábito crónico de reclamar afeta diretamente tanto a saúde mental quanto a integridade física do organismo, sendo que os impactos podem resumir-se assim:
1. O mecanismo no cérebro (neurobiologia da queixa)
•Viés de Negatividade: O cérebro humano evoluiu com um mecanismo que prioriza ameaças e problemas para garantir a sobrevivência. Focar constantemente no que está mal ativa e reforça esse viés.
•Alterações estruturais: A repetição constante de queixas cria caminhos neuronais mais fortes para pensamentos negativos, tornando a reclamação um comportamento automático. Ao mesmo tempo, prejudica funções cognitivas essenciais, como a capacidade de planear e resolver problemas práticos.
2. Impacto direto na saúde e longevidade
•Stress crónico e cortisol: A queixa constante sinaliza perigo ao organismo, provocando a libertação contínua de cortisol (a hormona do stress). Níveis elevados de cortisol a longo prazo geram inflamação sistémica, aumentam a tensão arterial e sobrecarregam o sistema cardiovascular.
•Redução da esperança média de vida: O stress crónico e distúrbios de foro mental fortemente alimentados pela negatividade habitual (como ansiedade e depressão) têm o potencial de reduzir significativamente os anos de vida saudável.
•Comprometimento imunitário: A resposta biológica à negatividade debilita o sistema imunitário, deixando o corpo mais vulnerável a doenças crónicas não transmissíveis, alertam os cientistas a que o Algarve Primeiro teve acesso.
São várias as especialidades médicas que defendem a premissa de que a queixa constante afeta gravemente a nossa saúde em geral. O gastroenterologista Will Bulsiewicz, faz a relação entre o stress e o estilo de vida e estuda como estes dois fatores afetam o microbioma intestinal (e vice-versa), pelo que «o impacto da negatividade repetitiva no organismo segue caminhos biológicos muito claros e bem documentados», tais como:
• Ativação do eixo do stress (Cortisol): Sempre que expressamos uma queixa ou nos focamos num problema sem procurar uma solução, o cérebro ativa uma resposta de ameaça. Isso liberta cortisol, a hormona do stress. Níveis cronicamente elevados de cortisol desgastam o corpo, aumentam a inflamação sistémica, elevam a pressão arterial e prejudicam o sistema imunitário.
• A conexão com o intestino (Eixo Intestino-Cérebro): O Dr. Will Bulsiewicz explica frequentemente que o stress psicológico crónico e a negatividade alteram diretamente a composição das bactérias intestinais (disbiose). Este stress enfraquece a barreira intestinal, podendo levar ao chamado "intestino permeável" (leaky gut), o que liberta endotoxinas na corrente sanguínea e gera inflamação crónica — um dos principais aceleradores do envelhecimento biológico.
• Alterações estruturais no cérebro: Estudos de universidades como Stanford demonstram que a exposição diária e prolongada a queixas e negatividade pode reduzir o tamanho do hipocampo. Esta é a área do cérebro responsável pela memória, aprendizagem e regulação emocional.
• A "Fiação" da Negatividade (Neuroplasticidade): O cérebro opera sob a regra de que "neurónios que disparam juntos, conectam-se". Reclamar repetidamente fortalece as vias neurais do pessimismo. Com o tempo, torna-se mais fácil e automático para o cérebro identificar problemas e falhas do que soluções e aspetos positivos, alertam os investigadores no mesmo estudo a que o Algarve Primeiro teve acesso.
Os investigadores deixam, no entanto, algumas dicas que podem ajudar a reverter o processo em qualquer momento da nossa vida:
Para proteger a longevidade e melhorar a qualidade de vida, os especialistas recomendam interromper ativamente este ciclo através de mudanças práticas:
• Queixa orientada para as soluções: Se algo está mal, expresse o problema de forma factual, focando-se imediatamente em como o resolver, em vez de apenas remoer o sofrimento.
• Prática de gratidão: Substituir o foco na falta pelo foco no que está a funcionar liberta neurotransmissores de bem-estar (como dopamina e serotonina) e pode reduzir os níveis de cortisol em até 23%.
• Alimentação e estilo de vida: Como defende o Dr. Bulsiewicz, cuidar do microbioma através de uma dieta rica em fibras e alimentos de origem vegetal fortalece a resiliência emocional e ajuda o corpo a gerir melhor as respostas ao stress.
É também fundamental que “vamos ao fundo da queixa”, que tentemos analisar o que nos inquieta, se é um problema no presente, algo do passado não resolvido ou se o hábito de reclamar também tem influência na forma como fomos educados, uma vez que é comum que muitas crianças se tornem “reclamonas” porque observaram esse comportamento nos pais e interpretaram-no como “normal”.
Ao mesmo tempo, pessoas que só se concentram no problema, que o alimentam diariamente, que se habituaram a ver tudo como um obstáculo e não uma oportunidade para aprender algo novo, acabam por orientar os pensamentos apenas nesse sentido.
Importa lembrar que as preocupações, só por si, não resolvem problemas e que deve haver um tempo para pensar e depois passar para a ação, mesmo que não tenhamos a certeza absoluta da resposta porque, na maioria das vezes, essa resposta só se descobre com o tempo. Admitir um erro é uma oportunidade de aprender mais, de saber mais sobre nós, sobre a situação e de termos a oportunidade de corrigirmos e de tentar de novo.
É muito mais enriquecedor tentar e aprender do que alimentar infinitamente o mesmo problema sem solução, alertam os psicólogos, deixando a ideia de que, se estivermos sempre à espera da solução certa, nunca a iremos encontrar, porque a vida constrói-se com tentativas e erros e jamais viveremos sem obstáculos. Depois, uma pessoa que se queixa “por tudo e por nada” torna-se pouco interessante, pelo que, em muitos casos, acaba por ser excluída dos grupos de pertença e até na própria família; por isso, tem muito boas razões para inverter esse comportamento já a partir deste despertar. Tomar consciência do que fazemos já é o primeiro passo para começar a mudar.