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Os portugueses deixaram de ser “bonzinhos”?
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Em primeiro lugar, importa ter em atenção que, “ser uma boa pessoa” não significa ignorância, inocência, burrice, nem está ligado ao facto de possuir mais ou menos conhecimentos.
 
Depois, o intuito deste apontamento prende-se simplesmente com a necessidade de comparar o tempo e os acontecimentos, pelo que, é neste sentido que, nos devemos interrogar se, o nosso povo deixou de ser “o bonzinho” e passou a ser o “desconfiado.”
 
“Corria a fama” pelos quatro cantos do mundo que, os portugueses eram muito boas pessoas, que eram bons trabalhadores, cidadãos exemplares e daí por diante.
 
Chegamos a Portugal e, em muitos casos conhecemos uma realidade bem diferente. Porquê?
 
São muitos os entendidos que se referem ao “nobre povo lusitano” como sendo uma população marcada pelo medo. Medo do que os outros pensam, medo de si mesmo, medo das “tentações”, medo da família, medo dos amigos, devido a uma enorme insegurança, baixa auto-estima e uma educação precária.
 
Não são divulgados dados nesse sentido, mas seguramente que, uma parte significativa da população portuguesa sofre de fobias de qualquer espécie, isto porque, com o medo que se foi instalando ao longo da nossa História, não é mesmo de admirar que, a falta de coragem e a fraca auto-estima, estejam relacionadas com a herança cultural e familiar.
 
Não existem dúvidas de que, “este povo só reage quando tem medo”, senão vejamos o que tem acontecido recentemente com o programa da troika… O problema é nacional e não distingue classes ou estatutos, pois os políticos são mesmo os primeiros a temer qualquer coisa que venha da EU ou de qualquer organismo internacional e, acabam por instalar esse pânico no povo. 
 
Provavelmente já o teria sido assim nos descobrimentos, em que se percorreu o mundo pelo medo do isolamento, pelo medo de existir mais noutro lugar e de nós desconhecermos, pelo medo de não termos o suficiente para alimentar os luxos da corte e daí por diante. 
 
Os nossos reis tinham medo e, procuravam “bravos guerreiros” para os representarem, passando assim a mostrar uma imagem de força. E, o termo “imagem” nunca fez tanto sentido. Somos um povo que procura desenfriadamente um bom carro para mostrar poder e lutar contra o medo. Uma civilização que, não tem medo de se endividar, porque tem medo de parecer pobre, de se mostrar frágil e com menos conhecimentos.
 
Trabalhamos mais no estrangeiro porque temos medo de represálias, pois no nosso país, nem com mais ou menos dinheiro essa motivação existe, pois temos medo de ser bons profissionais, medo de mostrar qualidades, medo de desafiar limites, medo de arrojar.
 
Claro que, quem perdeu este medo cultural, conseguiu vencer na vida e não se preocupa com os demais. Escusado será dizer que, “o fardo deste medo” é tão grande que, não teríamos psicólogos suficientes para ajudar e dar resposta a tantas carências, talvez por isso não se contabilizem os problemas psicológicos das pessoas.
 
Mas continuemos a saga do medo, na esperança de que, se conquiste mais coragem, pois na maioria das situações, conseguimos superar os nossos problemas se os entendermos como tal e, se reconhecermos que nos perturbam e desviam da felicidade.
 
Somos um povo com medo de ser feliz, porque os outros podem invejar, tememos as autoridades e, por isso, só cumprimos perante uma figura assustadora. Talvez não seja por acaso que, tenhamos tanta tendência para ser governados por “ditadores”, pois só reagimos perante a punição. Porquê?
 
Voltemos à cultura do medo que se foi enraizando e dando a impressão de que, quando houver motivos para reagir, “nós avisamos com uma ameaça”! E, é o que se verifica no nosso quotidiano: os governantes emitem mensagens dando conta de coimas, proibições, encerramentos, fiscalizações, etc. e todos procuram averiguar se estão dentro da lei para “poder ficar descansados”.
 
Não existe uma cultura de prevenção, pois o medo de ter de pagar quando se poderia ser absolvido também é uma realidade, “afinal, no meio da desorganização, há sempre quem se escape e posso ser eu”! Desta forma, vive-se em sobressalto, pois a tranquilidade conquista-se com a consciência tranquila; com a certeza de que temos tudo dentro da legalidade e que não estamos com medo de que “alguém nos bata à porta, ou chegue uma carta ameaçadora”.
 
Claro que o próprio funcionalismo público trabalha assim, não sabendo por antecipação esclarecer quem os procura “fora de tempo” e, o medo tende a persistir, pois os mais novos já são mais esclarecidos, mas ainda assim, têm de “andar a reboque” das ditas ordens superiores para saberem se estão a cumprir a legislação.
 
Depois, como a maioria da população vive sérias dificuldades económicas, é natural que esteja sempre à espera de uma falha do sistema para não pagar uma dívida e, gera-se um problema que arrasta outro, sendo que, nem a Liberdade conquistada no 25 de Abril tem dado mais estabilidade ás pessoas que continuam sufocadas pelo medo.
 
Mas como se pode lutar contra o medo se este “vem de cima”? Os nossos representantes são os primeiros a mostrar fragilidade perante as instituições internacionais e a “descambar” em cima do povo, como se fosse o responsável por tudo…
 
Com esta permanente sensação de pânico face ao próprio sistema, dificilmente se conseguirá inverter esta tendência, uma vez que, os cidadãos já sofrem diariamente o medo do desemprego, da rejeição, da fome, da pobreza, da doença, de não saber o que fazer perante uma carta das finanças e daí por diante e, depois confronta-se com as ameaças nos meios de comunicação social que dizem que, se deixar passar o prazo, paga, se não negociar a dívida vai para a rua, se não passar na prova, reduzem-lhe o salário, se…se e se… E, já para não falar nos cortes so porque a troika indicou e porque o Estado se endividou muito para além dos limites.
 
Como consequência disso, temos um povo amargurado, sem esperança e descrente em quase tudo. Mesmo com medo de perder o emprego, não são muitos os casos de funcionários bem formados e motivados para atender o público, muito menos o zelo pelo trabalho é uma realidade vincada. 
 
Com baixos salários é complicado, mas com medo de ser bom profissional não deixa de o ser e, novamente o sistema contagia-se sem haver culpas a atribuir, mas com necessidade de pensar numa profunda mudança de mentalidades.
 
Verifica-se então que, só conseguimos ser “boas pessoas” no estrangeiro porque, como existem regras, sabemos como cumprir, trabalhamos motivados com melhores vencimentos e, sem medo de represálias, pois cada um sabe os seus direitos e deveres.
 
Seria assim tão difícil ajudar o nosso povo a ser mais corajoso?
 
Bastava regulamentar, ensinar, fornecer a informação e permitir o erro, pois nesta base em que todos sabem tudo e, no fundo, a maioria sabe quase nada, o que se passa é que se anda sempre à procura de quem carregue as culpas e foge-se da correcção.
 
Quando já não se encontram culpados em território nacional, temos sempre um recurso à troika que nos impôs isto e aquilo, à EU que dita as regras, ao FMI que carregam pastas de regras e represálias…
 
Assim a coragem tem mesmo de começar por quem nos orienta os destinos e, nós povo, termos coragem de escolher melhor quem se enquadra numa política de coragem e que nos permita viver o medo na “dose certa”.
 
Ao mesmo tempo, cada um deve fazer o seu trabalho de casa e melhorar a atitude face aos outros e à sociedade, pois em cada cidadão está um conjunto de direitos e deveres para contribuir para a melhoria do sistema colectivo.
 
Um segredo passa mesmo pelo brio – ter coragem de ser profissional, procurar formação e desenvolver a sua própria motivação, pois quem sabe o seu valor, rapidamente será reconhecido pelas entidades patronais.
 
Não é com baixa auto-estima quem alguém resolve os seus problemas, muito menos “atrai” melhores condições de vida e, quando é preciso reclamar e reivindicar, teremos muito mais direito de palavra e segurança para o fazer. Não nos esqueçamos de que, para ter coragem, é preciso viver dentro da legalidade e, isso faz-se cumprindo os nossos deveres. Depois, podemos passar para a exigência dos nossos direitos.
 
Certamente que, a postura revoltada perante o público, só acrescenta a má impressão de muitos serviços e dá espaço a que “os mais autoritários” se aproveitem dessa fragilidade para instalarem mais medo.
 
Faça a sua parte!
 
Fátima Fernandes
 
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