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Perdoa-se muito, mas não se aceita tudo!
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Há quem diga que, “uma mente evoluída já não volta ao seu estado inicial” e, talvez essa seja uma explicação para abordar este tema do perdão.
 
Quando se diz que perdoamos muito, mas que não se aceita tudo, estamos a mostrar a nós mesmos que há limites e que o conhecimento nos ajuda a tomar decisões.
 
Na prática, isto quer dizer que, à medida em que vamos evoluindo, vamos analisando mais corajosamente as pessoas e as situações e, naturalmente que vamos tendo opiniões mais atualizadas sobre os nossos próprios comportamentos. 
 
Se aceitamos uma determinada situação antes de refletirmos sobre ela, provavelmente teremos outra postura depois de encontrarmos alternativas para o que nos aconteceu.
 
Isto acontece com as situações, mas também com as pessoas, por isso se diz que, “aguentou tudo e desistiu” ou “parecia que estava tudo bem e, de um momento para o outro, acabou”.
 
A vida é dinâmica e a mente humana também, talvez por isso se fuja tanto do “sempre” e do “nunca”, pois é muito difícil afirmar que se vai suportar sempre uma situação quando se toma consciência dela, tal como é complicada a tarefa de viver durante muito tempo em conflito e sofrimento interior, por isso, estamos sempre à espera de reunirmos as condições para avançarmos para o passo seguinte e superar aquilo que nos angustia.
 
Todos sabem que, as grandes mudanças dependem de cada sujeito, por isso mesmo, não se sabe até que ponto está a aguentar a situação e quando é que poderá desistir e mudar de direção. 
 
O mesmo se passa connosco, daí a importância de dar atenção a quem se ama, daí ser fundamental que uma família construa laços afetivos, daí a relevância de saber quem é importante e quem poderá estar de passagem na nossa vida, pois mediante as atitudes que as pessoas têm, assim será o desenlace das relações.
 
Há pais que rejeitam filhos, que os entregam à sociedade por discordarem com as suas escolhas, há filhos que não aceitam os pais e a falta de respeito conduz a relações que não são para a vida. Por norma, estas relações só resistem à vitimização e, durante um determinado período de tempo, já que, mais cedo ou mais tarde, acaba por haver uma desistência que pode ser mais ou menos pacífica, tudo depende da maturidade de quem a termina.
 
O mesmo se passa nas amizades ou demais laços familiares. Enquanto a relação é baseada na honestidade, vive-se em pleno, quando passa para o plano da manipulação e do interesse, terá o tempo contado.
 
Não é por acaso que existem tantos problemas psiquiátricos na nossa sociedade: é porque no passado os valores da igreja “seguravam” as relações entre as pessoas sem que houvesse uma preocupação com os atos. Hoje cada sujeito é autónomo e, se tiver de se despedir dos pais em vida fá-lo porque considera que foram injustos para consigo, que o agrediram de alguma forma e que não suportam mais. Existe também o divórcio que determina quando uma relação já não se baseia no respeito e no afeto e, muito mais fácil ainda é tirar a amizade a alguém que se julga melhor ou que nos prejudica de alguma forma.
 
O perdão acontece quando há um efetivo reconhecimento do erro e uma mudança de atitude. Caso contrário, a falsidade persiste e, mais cedo ou mais tarde, a relação não sobrevive.
 
Quando alguém desiste, é porque ganhou coragem para se afastar de quem o/a faz sofrer e encontrou uma alternativa, por isso há quem aguente muitos anos, há quem corte relações e dê lugar a uma nova vida, seja familiar, seja de amizade ou casamento.
 
Para manter uma relação, é preciso um investimento sincero e honesto, aprender a corrigir os erros e fazê-lo em conjunto. É valorizar-se e valorizar o outro, é conversar abertamente sobre os problemas e, negociar as soluções. Esta é a base entre parceiros, filhos e pais e amigos; base essa que não precisa de perdão, precisa apenas de relação!
 
Depois, é preciso ter em conta que, nenhum ser humano se dá emocionalmente a quem o trata mal, pode suportar por medo, por comodismo, por necessidade, mas sempre que se abre a oportunidade de viver o amor, despede-se sem voltar atrás. Nesse sentido, também se pode afirmar que o perdão dura até que o sujeito se aperceba do valor de amar e de ser amado.
 
Na nossa sociedade já não existe a obrigação de cumprir um compromisso, muito menos aquilo que se disse, pois a evolução permite que se encontrem alternativas, que se vivam diferentes caminhos e opções. As pessoas casam por opção, são pais na mesma condição e assumem esses laços em função da troca afetiva, pelo que, as relações de manipulação são cada vez mais efémeras. Homens e mulheres são hoje capazes de “abandonar um barco” que já não os preencha e alimente emocionalmente.
 
Contrariamente ao que se diz, o ser humano não está cada vez mais materialista, simplesmente já percebeu que o amor se vive dentro de casa, que as relações evoluem com entrega de parte a parte e que, os filhos merecem ser desejados, amados e respeitados para que devolvam esses sentimentos aos pais. Quanto tal não existe, torna-se fácil desistir e descartar uma situação, por muito próxima que seja.
 
Não são os parentescos que mantêm as relações, mas sim a qualidade dos afetos que se partilham. Dúvidas houvesse, temos as redes sociais que mantêm os laços de amizade até que a pessoa se revele manipuladora ou interesseira, até que mostre qual é a sua verdadeira intenção, até que se esgote a paciência de quem acreditou numa amizade verdadeira e desistiu de um momento para o outro.
 
Evoluir é mesmo aprender com a sociedade atual e tomar a decisão que melhor se encaixa na sua vida, sabendo que cada indivíduo é livre para fazer as suas opções e que terá sempre uma justificação pessoal para as fazer. Se há quem condene, há sempre quem aprove, porque a nossa sociedade é cada vez mais democrática e aberta à diversidade.
 
Fátima Fernandes
 
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