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Porque é que os portugueses se incomodam tanto com a opinião dos outros?

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Tendo por base o resultado de vários estudos, percebe-se que esta necessidade de aprovação é vivida pelos portugueses de um modo muito particular.

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A preocupação com a aprovação dos outros não é exclusiva dos portugueses, mas em Portugal este comportamento está profundamente ligado a fatores culturais, históricos e sociais que moldam a identidade nacional, sublinham os especialistas nesta temática.

Os cientistas na área social explicam que esta necessidade de aprovação externa deve-se essencialmente a estes fatores:

1. Influência da cultura de coletivismo e família

Portugal possui uma cultura com fortes laços familiares e comunitários. Nestas sociedades, o sentido de pertença é uma necessidade básica; historicamente, ser aceite pelo grupo era essencial para a sobrevivência. Isto cria uma tendência para evitar o conflito: Muitas pessoas dão razão aos outros ou escondem opiniões próprias por medo de afastar ou irritar quem lhes está próximo.

Manter uma “fachada social": Existe uma enorme pressão para que a pessoa se ajuste a traços de personalidade e comportamentos para se adequar a contextos sociais, como o trabalho ou a escola.

2. O peso do escrutínio social e desconfiança

Estudos indicam que os portugueses estão entre os povos mais desconfiados da Europa em relação aos outros e às instituições.

O "Diz-que-disse": A cultura do boato e do julgamento alheio faz com que as pessoas sintam que as suas vidas estão constantemente a ser examinadas ou escrutinadas pelas "massas".

Medo do julgamento: Esse escrutínio gera um medo real de parecer "fora da norma", levando a uma preocupação excessiva com a perfeição física e comportamental.

3. As redes sociais amplificam as características e traços culturais

Como acontece globalmente, as redes digitais tornaram a aprovação algo quantificável através de gostos e seguidores. Nesse sentido, são muitos os portugueses que sentem uma profunda necessidade de se sentirem aprovados nas plataformas digitais pelo que só publicam o que “é socialmente aceite” e que merece muitos “gostos”. Este comportamento afasta as pessoas da sua essência, ao mesmo tempo que demonstra o medo da rejeição e da crítica social, fazendo com que a pessoa não se revele minimamente e que tenha de obedecer a uma determinada “fachada”.

Esta postura dá lugar a um cansaço identitário, ao afastamento de quem não se revê nesses momentos perfeitos que são publicados, tal como a um estado de ansiedade por parte de quem faz essas publicações e não colhe os resultados pretendidos, mas também o medo de ser “desmascarado”.

Um outro ponto negativo é a insegurança crónica, isto porque, quando o valor pessoal passa a ser medido pela reação dos outros online, a autoestima torna-se instável e dependente de fatores externos.

4. Herança de civilidade e formalidade

A cultura portuguesa valoriza imenso a polidez, o respeito e o cumprimento de normas sociais (como os cumprimentos formais ou o uso de títulos).

Pressão da "Boa Educação": O desejo de ser visto como alguém "bem-educado" ou "respeitável" pode ser confundido com a necessidade de aprovação, pois a imagem pública é tratada como um ativo valioso, a ponto de ainda ser comum exibir um carro topo de gama, mesmo que não esteja pago ou que o dinheiro falte para outras necessidades; as roupas devem ser cuidadosamente escolhidas “para parecer bem”, tal como o telemóvel e demais objetos que se podem mostrar.

Embora esta preocupação possa causar ansiedade e paralisia, os entendidos nesta matéria sugerem que o caminho para o equilíbrio passa por  distinguir críticas construtivas do simples ruído social, e que as pessoas devem focar-se no seu próprio autoconhecimento e desenvolvimento para que possam proteger-se da influência alheia.

Uma pessoa que traça os seus planos e objetivos, que tenta concretizar o que deseja, mais facilmente conseguirá abstrair-se do que os outros pensam a seu respeito, decidir se quer ou não fazer publicações nas plataformas digitais, o que quer mostrar e daí por diante. Tomar consciência desta realidade ajuda muito a decidir o que se pretende fazer daqui para a frente: continuar à procura da aprovação dos outros ou respeitar o meio onde estamos inseridos, exigir também respeito por nós próprios e tomar as decisões que mais se adequam ao que somos e sentimos sem que os outros tenham alguma interferência.

Naturalmente que pessoas que vivem em demasia a aprovação externa acabam por tornar-se conformadas com a sua vida e o seu modo de “sobrevivência”, que muito se afasta daquilo que se designa como vida significativa e feliz, alertam os entendidos na área do comportamento humano.

Os estudos demonstram que o conformismo em Portugal é frequentemente descrito como um fenómeno multifatorial, enraizado em aspetos culturais, históricos e socioeconómicos. Segundo análises contemporâneas, este comportamento não resulta de uma única causa, mas de um desgaste acumulado e de adaptações a um contexto adverso.

As principais razões apontadas para este conformismo estão ligadas a um cansaço que se estende à falta de reconhecimento – acredita-se que, trabalhar muito ou pouco em nada altera a posição do indivíduo face à entidade patronal –, descrédito nas promessas políticas que se repetem, mas que, em muitos casos, não se concretizam e só alimentam a ilusão, uma cultura muito enraizada na religião e no medo de “parecer mal” aos olhos dos demais cristãos, o medo de questionar, de intervir social e culturalmente, a que se junta a falta de esperança de que algo mude também devido ao envelhecimento da população e à necessidade de renovação das mentalidades que resistem a essa mudança.

Como muitos portugueses têm medo de “dar nas vistas”, de serem “mal falados”, “criticados”, desprezados ou colocados fora do grupo e até da família, arrastam esta vida fictícia, sofrida, triste e limitam-se a dizer: “vamos andando”.

Na posição de muitos entendidos, a mudança tem de passar por devolver a autoestima e a autoconfiança à população para que as mentalidades se alterem e, para isso, é preciso formar e informar melhor, chamar as pessoas à participação cívica, valorizá-las nos mais variados contextos, incluindo a profissão, de modo a permitir que estes medos se ultrapassem, mesmo sabendo que será um trabalho longo, mas que tem de ser encetado, sob pena de cada vez mais jovens terem de sair do país para que possam ser livres e aceites, sustentam alguns críticos sobre esta matéria.