“O que nós pretendemos fazer é criar um nicho de animais em linha pura que justifique, depois, sim, começar a comercializar”, disse à agência Lusa o produtor Afonso Nascimento, que também é o presidente da Associação de Criadores de Gado do Algarve (ASCAL).
Na década de 1950 chegou a haver mais de 20.000 cabeças de bovinos de raça algarvia, mas a mecanização da agricultura, a introdução de raças exóticas e o progressivo abandono dos campos diminuiu o seu efetivo, e esta raça chegou mesmo a ser dada como extinta.
Em 2005, num esforço conjunto da ASCAL, da então Direção Regional de Agricultura e Pescas (DRAP) do Algarve e da Direção-Geral de Veterinária, foi realizado um estudo que permitiu iniciar a recuperação da raça.
“É uma raça que estava completamente em vias de extinção. Em 2019-2020, tínhamos um efetivo muito reduzido e acontece que, todo o investimento foi feito para a reabilitação desta raça que estava completamente morta, estava desaparecida”, afirmou Afonso Nascimento.
Segundo os números da ASCAL, que é responsável desde 2005 pelo Livro Genealógico da Raça Algarvia de bovinos, os animais considerados de linha pura desta raça passaram de cinco em 2018 para 27 em 2024 e, posteriormente, para 47 em 2025.
O Livro Genealógico da Raça Algarvia de bovinos é o registo oficial de identificação e controlo zootécnico dos animais desta raça.
“O que nos levou a investir nesta raça é, pura e simplesmente, só carolice, o gosto, e não deixar morrer aquilo que havia de tradição e da própria cultura aqui a nível do Algarve e no concelho de Vila do Bispo”, prossegue o responsável.
Há pelo menos cinco produtores que se interessaram pelo desenvolvimento desta raça, com explorações situadas nos concelhos de Vila do Bispo, Lagos, Portimão, Silves e Tavira, no distrito de Faro.
Um dos precursores deste movimento de recuperação da raça algarvia é António Figueiras, que continua a tentar desenvolver a produção destes animais.
“O interesse é que já o meu pai também tinha vacas algarvias, até tinha touros de cobrição, e foi uma coisa que ficou gravada e que depois destes anos todos eu tive algumas condições para ter os animais. E pronto, tenho ido avançando com isto”, disse o produtor.
António Figueiras acredita que os animais desta raça poderão, no futuro, ter um valor económico suficiente para ser vendidos, como outros animais, nos canais normais de distribuição.
“Eu acho que sim. Se as coisas forem evoluindo, como estão evoluindo na questão da carne, que mais tarde, desde que haja núcleos suficientes para fazer a recolha dos animais para abate e para distribuição, eu acho que poderá ser um bom negócio”, afirmou.
Apesar da sua idade, o produtor está confiante no futuro do investimento feito até agora: “Vou continuar enquanto puder, mas se não puder há de ficar alguém também para avançar com isto”, disse.
Há cerca de 10 anos António Figueiras tinha dois bovinos desta raça e atualmente tem cerca de 20 animais, entre machos, fêmeas e vitelos.
“Gosto desta raça porque é uma raça algarvia, uma raça que o meu pai teve, muita gente teve, houve centenas e milhares de animais destes no Algarve, e terem desaparecido assim de um momento para o outro, acho que é triste”, afirmou António Figueiras.
Uma entidade que tem dado apoio aos produtores da raça de bovinos algarvios é a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento (CCDR) do Algarve que criou a marca Saborear o Algarve, o passo seguinte para tentar valorizar os produtos relacionados com estes animais.
“São muito poucos animais ainda. Ainda estamos numa fase de multiplicação. O objetivo inicial agora é aumentar o número do efetivo, posteriormente é que vamos tentar essa valorização, dando mais valor aos produtos da carne que vão sair daqui”, disse João Santana, chefe da divisão de Apoio Técnico e de Proximidade da CCDR.
A raça algarvia é uma raça bovina autóctone do sul de Portugal, tradicionalmente adaptada ao clima quente e seco do Algarve e a sistemas extensivos de pastoreio, sendo considerada uma raça rústica e de dupla aptidão (carne e trabalho).
“Sim, para já são animais que são muito adaptados ao nosso clima, a esta região. São animais que não são muito exigentes em termos alimentares, que têm uma capacidade de adaptação muito maior do que as raças exóticas e são muito menos exigentes em termos alimentares”, afirmou o técnico da CCDR.
Para esta entidade, a raça tem “um património genético único no mundo” e há razões para continuar a apoiar os produtores que se interessam por estes bovinos, embora as ajudas previstas sejam consideradas escassas por estes.
Os criadores de bovinos da raça algarvia podem candidatar-se a apoio financeiro anual para manter o efetivo da raça, incentivando a conservação do património genético autóctone.