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Psicologia explica as principais dificuldades em ser pai ou mãe

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A psicologia diz que a principal dificuldade em ser pai ou mãe não está no cansaço e na exigência dessa tarefa.

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De acordo com os entendidos nesta matéria, a maior dificuldade que os pais enfrentam e que, muitas vezes, não conseguem descodificar ou admitir é o facto de os filhos “captarem” tudo o que os adultos querem esconder do seu passado e que determina muito o modo como decorre a relação entre pais e filhos.

Todos temos feridas de infância e, quando somos pais, facilmente as mesmas se abrem e dão lugar a conflitos que não se referem aos filhos, mas sim ao contacto com essas dores do passado que os filhos ajudam a “desenterrar” por estarem na idade que já tivemos, por fazerem algo semelhante ao que já realizámos ou até por não fazerem do mesmo modo. Tudo é um confronto e parece que os filhos “fazem de propósito para provocar-nos”, dizem muitos pais.

Basicamente, a educação dos mais novos e a convivência diária colidem com as frustrações dos pais, com mal-entendidos do passado, com traumas e problemas não ultrapassados que se refletem nos filhos, registam os psicólogos.

Trata-se de um reflexo involuntário, mas acaba por tornar a relação pais e filhos complexa e, em muitos casos, até carregada de mal-entendidos, desgaste, conflitos e mal-estar, razão pela qual os psicólogos sugerem que os adultos reflitam sobre si mesmos e que tentem compreender a razão pela qual assumem determinadas posturas ou comportamentos.

Para a psicologia, «os filhos funcionam como reflexos que devolvem comportamentos, medos e padrões emocionais que o adulto acreditava ter superado, transformando a rotina numa jornada de autoconfronto constante». Tal acontece porque, segundo o psicanalista britânico Donald Winnicott, «a criança procura no rosto da pessoa que lhe oferece cuidado, amor e proteção, o reflexo necessário para construir a sua identidade».

Contudo, esse mecanismo é bidirecional (os filhos também devolvem aos pais uma imagem que nem sempre é confortável de contemplar).

Um relato clínico publicado pela Psychology Today reforça que a parte complexa da parentalidade não é guiar o jovem, mas analisar-se a si mesmo nesse espelho quotidiano.

Muitas vezes, os pais percebem que, ao tentarem orientar e apoiar os filhos, estão a tentar curar feridas passadas da infância que ainda permanecem abertas.

A base desse fenómeno reside nos neurónios-espelho, células cerebrais que se ativam tanto ao executarmos uma ação quanto ao observarmos outra pessoa a realizá-la.

Quando uma criança manifesta um comportamento desafiador, o cérebro do adulto pode reagir com uma carga emocional desproporcional, ativando memórias e padrões não resolvidos da sua própria história.

Tendo por base um estudo científico publicado pelo PubMed Central sobre a transmissão de experiências adversas na infância (ACEs), «pais com históricos traumáticos não tratados tendem a replicar esses padrões nos filhos. O estudo destaca que o autoconhecimento intencional é o único fator capaz de interromper esse ciclo biológico e psicológico entre as gerações».

A grande barreira não é aceitar que os filhos aprendem por observação, mas reconhecer os próprios defeitos no exato momento em que eles se manifestam. Sob pressão ou cansaço, o pai pode confundir o erro do filho com uma avaliação da sua própria competência, gerando uma hipervigilância que sufoca a individualidade da criança, tornando-se essencial tomar consciência do que está por detrás de determinadas reações para que não se reaja impulsivamente, alertam os especialistas na área da psicologia, sublinhando que, ao tomar consciência do padrão que dá lugar a um comportamento, o pai ou a mãe podem alterar a forma como atuam com os filhos sem que se sintam afetados pessoalmente.

Para realizar essa transição de forma eficaz, os especialistas recomendam adotar as seguintes práticas mentais:

• Identificar se a irritação sentida pertence ao momento atual ou a uma lembrança do passado;

• Questionar qual é a parte do seu próprio eu que está a ser tocada pelo comportamento do filho;

• Reconhecer que o suporte terapêutico é uma ferramenta de responsabilidade parental;

• Valorizar os reflexos positivos, como paciência e generosidade, que o espelho também mostra.

Assim, o autoconhecimento torna-se uma ferramenta essencial para que se desenvolva uma parentalidade positiva e equilibrada, tendo por base a importância de separar a relação com o filho daquilo que foi o passado dos pais. Investir em si mesmo, reservar um tempo diário para a reflexão, admitir que não há pais perfeitos, muito menos os filhos o são, mas que é sempre possível melhorar a conduta, tal como permitir que a criança ou jovem seja ele próprio sem que o olhemos como uma marca do nosso passado, são requisitos essenciais para mudar: o modo como olha para si e se assume e a forma como passa a aceitar melhor, a respeitar e a aceitar o seu filho tal como é.

Por fim, os especialistas reforçam que, quando os pais acolhem o reflexo que os filhos revelam, estão a dar a oportunidade de evoluir em conjunto, de melhorar a relação e os sentimentos mais positivos entre ambos, o que facilita a convivência, permite a liberdade, dá lugar ao respeito e a uma convivência honesta e genuína que resulta em amadurecimento, em pais mais saudáveis e felizes porque curaram as suas feridas de infância e filhos melhor preparados para o seu futuro, porque se desenvolvem de modo salutar e positivo.