Para estes investigadores, o que torna uma criança bem-criada nestes tempos de mudanças tecnológicas e hiperestímulos virtuais, «é a prática de antigos e eficazes elementos, que são essenciais na construção de uma pessoa altruísta, empática, equilibrada, com saúde, inteligência e maturidade emocional».
Deste modo, «consegue-se evitar que as crianças e adolescentes “mergulhem exacerbadamente” na procura pela felicidade e pelas recompensas imediatas disponibilizadas pelas tecnologias e, em particular, pelas redes sociais»; e isso requer uma entrega e empenho diários dos pais, sublinham.
De acordo com a equipa de especialistas que tem levado a cabo diversos trabalhos nesta área, é preciso dar um passo atrás e recuperar valores essenciais de convivência familiar que se vão refletir nas mais variadas situações do dia a dia e nos mais variados contextos sociais.
Ensinar a esperar, saber lidar com o tédio, agradecer, saber colocar-se no lugar do outro, ter compaixão e saber resolver problemas são algumas habilidades que os mais novos têm de desenvolver o quanto antes se queremos dar-lhes saúde e bem-estar físico e emocional, afirmam os especialistas da mesma universidade.
Ser uma pessoa habilidosa para fazer da gentileza um estilo de vida é altamente positivo para si mesmo porque quem está esclarecido acerca das suas verdadeiras prioridades torna-se mais consciente e uma “boa pessoa”, afirmam os cientistas realçando que, para isso, é fundamental a orientação e o exemplo dos pais.
Já dizia Sófocles que “Quem é bom na família também é um bom cidadão.” e esta base serve para pais e filhos. Os adultos dão o exemplo empenhando-se em transmitir bons valores e uma partilha genuína de afetos e saberes e os mais novos aprendem dando também o seu contributo e retorno daquilo que receberam dos pais. É uma troca que se quer pela vida fora, enfatizam os especialistas de Harvard com estas dicas valiosas para educar melhor:
1. Tempo não é dinheiro, tempo é vida
A chave para entender como criar “bons” filhos é sermos pais presentes, o que requer interação, diálogo, interesse pelos assuntos deles, ao mesmo tempo que os envolvemos nos nossos, sempre dando ênfase aos valores, sugerem nos trabalhos a que o Algarve Primeiro teve acesso.
Gestos simples como brincar, compreender, dar afeto, promover descobertas, fornecer estímulos positivos, surpreender, acompanhar, orientar, respeitar as opiniões dos filhos e as oportunidades de descoberta, afastam os mais novos dos ecrãs ao mesmo tempo que aproximam as relações familiares.
O tempo livre deve ser aproveitado e desfrutado em conjunto, uma vez que a infância e a adolescência passam muito depressa e nem sempre as vidas agitadas permitem a disponibilidade que gostaríamos, mas fazer dos momentos em conjunto únicos e especiais deixa marcas muito importantes para a vida; aquilo que o dinheiro não paga, reforçam.
2. Diálogos enriquecedores
Estudos como os realizados na Harvard University em colaboração com o Massachusetts Institute of Technology (MIT) indicam que a exposição precoce à linguagem é um estímulo muito significativo no desenvolvimento cognitivo e emocional de uma criança, já que favorece as habilidades cognitivas e a gestão emocional.
Nesse sentido, é essencial conversar com os nossos filhos, transmitir valores sem críticas destrutivas que rapidamente os afastam, mostrar compreensão, leveza e bom humor mesmo quando é necessário validar uma regra ou corrigir um comportamento. Chamar a atenção é crucial, mas não tem de ser de forma destrutiva, crítica ou baseada em humilhações, alertam os investigadores destacando a importância das conversas engraçadas e interessantes que deixam os jovens mais motivados e próximos.
3. Educação baseada na gratidão
Segundo os psicólogos de Harvard, é fundamental educar os nossos filhos para a bondade, para valorizarem o que têm, mas respeitando o que os outros possuem e a forma como são e vivem. Muito mais do que ensiná-los a dizer “obrigado, com licença ou por favor”, é essencial despertá-los para o dia a dia; para aquilo que nos acontece, para as pequenas conquistas, para o verdadeiro valor das coisas simples e os pais devem dar o exemplo.
4. A capacidade de resolver problemas
Os especialistas afirmam a importância de ensinarmos os nossos filhos a resolverem os seus problemas para que se tornem mais capazes de enfrentar a vida e os seus desafios. Os pais devem ajudar, mas não ultrapassar as situações por eles, uma vez que essa autonomia os torna mais maduros, responsáveis e também capazes de ajudar os outros quando necessário.
5. O mundo além das tecnologias
Crianças e jovens que dedicam muito tempo diário às tecnologias acabam por aprender o mundo através da realidade dos outros e não da sua. Seja no tempo de lazer, estudo ou nas interações sociais, os mais novos que passam muito tempo ligados aos ecrãs chegam a um ponto em que não sabem o que é a vida real, quem são e o seu valor. Cabe aos pais mostrar-lhes que existe um mundo por descobrir além da realidade digital e, para isso, devem proporcionar-lhes experiências, momentos em família, convívio genuíno e atividades prazerosas.
Para tal, é preciso surpresa, bom humor e desafiá-los para novas vivências. Um piquenique num lugar bonito e com algo novo por descobrir, visitar um museu ou outra forma de expressão cultural, jogos de tabuleiro, atividades físicas ao ar livre, caminhadas em família, ler um livro em voz alta, estudar com eles, fazer-lhes perguntas, responder ao que nos questionam, são apenas alguns exemplos.
Por fim, a investigadora Lisa Feldman Barrett, associada a Harvard, propõe que os pais devem agir como jardineiros e não como carpinteiros:
• O carpinteiro tenta esculpir e moldar a criança para que ela seja exatamente o que o adulto quer.
• O jardineiro prepara e cuida de um ambiente fértil e seguro para que a criança desenvolva a sua própria resiliência face às adversidades do mundo digital e real. A investigadora sugere ainda que se explique o "porquê" das regras de convivência, promovendo a regulação das ações através da empatia e da previsibilidade.