Vulgarmente fala-se na “ama digital” que ocupa a criança quando os pais estão a realizar uma tarefa, aguardam pelo prato num restaurante ou querem conviver “descansados”, mas a verdade é que, sem se darem conta, os pais estão a limitar o correto e saudável desenvolvimento dos filhos e, em linhas gerais, a aceitar que os filhos sejam educados pelos valores que observam na Internet e que, em muitos casos, não conheçam o mundo para além do ecrã.
De acordo com os apontamentos de especialistas a que o Algarve Primeiro teve acesso, a educação de crianças e jovens baseada predominantemente no consumo de conteúdos digitais «traz consequências profundas para o desenvolvimento neurobiológico, emocional e social».
Como o cérebro das crianças está em pleno crescimento — especialmente no córtex pré-frontal (responsável pelo controlo de impulsos e planeamento), a maturar até por volta dos 24 anos —, a exposição sem limites e sem mediação parental gera impactos severos a curto e longo prazo, alertam os cientistas, enumerando as principais consequências a que os pais devem estar atentos e sugerindo «uma mudança nos hábitos diários»:
1. Desenvolvimento cognitivo e aprendizagem
• Défice de atenção e menor tolerância ao tédio: Os algoritmos das plataformas digitais são desenhados com mecanismos de design compulsivo (como vídeos curtos e reprodução automática), o que habitua o cérebro a picos rápidos de dopamina. Isto prejudica a capacidade de concentração em tarefas de longo prazo, como a leitura e o estudo académico.
• Atraso no desenvolvimento da linguagem: A falta de interação verbal real e direta com os pais (que muitas vezes também sofrem de "tecnoferência", o desvio de atenção para os seus próprios ecrãs) reduz drasticamente o vocabulário e a qualidade da comunicação da criança.
• Prejuízo na imaginação: O consumo passivo de conteúdos entrega histórias e estímulos totalmente prontos, limitando o espaço para o desenvolvimento do pensamento abstrato, da criatividade e do brincar livre.
2. Impactos emocionais e de saúde mental
• Dependência tecnológica: O uso desregulado condiciona o cérebro ao uso compulsivo, gerando crises de abstinência (irritabilidade extrema, agressividade ou choro) quando os ecrãs são retirados.
• Ansiedade e depressão: A exposição prolongada (especialmente acima de 3 horas diárias) está diretamente associada ao aumento de sintomas depressivos e ansiosos. O impacto é acentuado pela comparação constante com padrões irrealistas de beleza e estilos de vida nas redes sociais.
• Dificuldades na autorregulação: Crianças que usam ecrãs para acalmar birras ou frustrações não aprendem a processar e a gerir as suas próprias emoções negativas de forma autónoma.
3. Consequências sociais e de comportamento
• Isolamento e défice de empatia: A redução das interações presenciais com os pares diminui a capacidade de ler expressões faciais, interpretar pistas sociais e resolver conflitos quotidianos frente a frente;
• Exposição a riscos digitais severos: Sem supervisão ativa, os menores ficam vulneráveis a fenómenos como o cyberbullying, aliciamento por estranhos, acesso a pornografia ou conteúdos que promovem a automutilação e comportamentos de risco.
4. Saúde física
• Distúrbios graves do sono: A luz azul emitida pelos ecrãs inibe a produção de melatonina. O hábito de usar dispositivos antes de dormir atrasa o início do sono e degrada a sua qualidade, o que dá lugar a um cansaço crónico.
• Sedentarismo e atraso motor: A substituição de brincadeiras físicas pelo ambiente digital contribui para o aumento da obesidade infantil, problemas posturais e um desenvolvimento deficiente da motricidade fina (ex.: dificuldade em desenhar, pintar ou recortar).
Perante este cenário, os psicólogos do desenvolvimento afirmam que a solução não passa por suprimir as tecnologias a crianças e jovens que já nasceram e cresceram com esse acesso, mas sim por «regular a sua utilização de modo a que não seja prejudicial».
O segredo passa por ensinar desde cedo como utilizar a tecnologia e por os pais fazerem um acompanhamento de modo a evitar que «seja tarde demais».
Assim, é essencial proporcionar atividades ao ar livre com os filhos, habituá-los ao contacto com a natureza, com momentos de lazer, de prática regular de atividade física, bem como à leitura, ao diálogo e às brincadeiras em família.
Ao mesmo tempo, devem ser estabelecidas regras e horários para a utilização dos ecrãs que pais e filhos devem cumprir, como refeições sem tecnologia e conversa em substituição, realização em conjunto de tarefas em casa ou no exterior, sem recurso aos ecrãs e, naturalmente, que estes não devem permanecer no quarto durante o período de sono.
É uma realidade que as escolas estão a dar o seu contributo com a regulamentação dos telemóveis e que já existem regras de utilização para as redes sociais, mas sabemos muito bem que os pais também têm de assumir um papel ativo neste processo, dando a sua atenção, oferecendo alternativas divertidas para os tempos livres, reservando diariamente um tempo de qualidade com a intenção de brincar, conviver, praticar atividade física e cuidar das tarefas em casa envolvendo os mais novos.
Os psicólogos sublinham que vamos sempre a tempo de corrigir aquilo que tem corrido menos bem por desconhecimento; afinal, as tecnologias “invadiram-nos” o quotidiano e não estávamos despertos para tantos riscos associados, mas agora que estamos mais esclarecidos, devemos mudar. Mudar o comportamento dos adultos face aos ecrãs para que também os mais novos alterem a sua conduta prejudicial, recomendam, garantindo que, aos poucos, é possível captar a atenção dos nossos filhos para uma boa conversa, um jogo de tabuleiro ou para realizar uma pesquisa em família, aproveitando para alertar sobre os riscos que se podem sofrer online e, acima de tudo, mostrar aos nossos filhos o quanto a presença deles é importante, o prazer de ir ao restaurante em família, de proporcionar bons momentos em conjunto e que os mesmos podem ser muito divertidos.
Por fim, os especialistas e entidades de segurança digital — como a iniciativa Internet Segura e os guias do programa SeguraNet — reforçam que a solução não passa apenas pela proibição radical, mas sim por uma mediação ativa e consciente que deve envolver os pais, mas também a sociedade, em prol de um desenvolvimento físico e mental saudável.