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Rejeição dos pais deixa marcas para a vida
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Muito se fala no assunto, mas talvez com pouca profundidade e, não da forma mais adequada para que se compreenda a dimensão do problema.
 
O facto de, uma criança ser rejeitada na infância pelo pai, pela mãe ou por ambos, deixa marcas na personalidade do indivíduo muito difíceis de superar ou resolver.
 
O amor dos pais é simplesmente a maior referência de personalidade e uma orientação para a vida que vai ajudar a determinar o sucesso do sujeito nas mais variadas áreas.
 
São muitos os pais que se queixam da tristeza dos filhos, da recusa em aceder a determinadas orientações e tarefas, da repulsa em ter um comportamento em conformidade com o que lhes é sugerido, sem esquecer o desajuste comportamental na escola, mas não param para pensar no que poderá estar por detrás de tudo isso. 
 
Uma criança que se sente rejeitada, terá muito mais facilidade em chamar a atenção dos pais com os mais variados comportamentos, sendo que, a tristeza no olhar, a rejeição dos alimentos, o choro frequente podem ser os primeiros sinais de alerta, a par das birras e do mau comportamento.
 
São cada vez mais os especialistas que se fazem ouvir através dos seus apontamentos, dando conta de que, o amor dos pais é a base do desenvolvimento das crianças.
 
Numa sociedade onde parece que o tempo se gasta no trabalho e na procura de melhores condições de vida, vale a pena pensar no «preço a pagar» pelo sofrimento dos filhos que, «insistem em não ser felizes mesmo com todos os bens materiais que lhes oferecemos». A questão é tão simples quanto complexa ao mesmo tempo. 
 
Se por um lado, se criou a ideia de que uma criança é feliz com brinquedos novos e com a satisfação dos seus pedidos, na prática, o que torna uma criança de bem com a vida é o amor e a atenção dos seus pais. Quer isto dizer que, se tem defendido uma teoria errada que só vai ao encontro do consumo e da necessidade de ter e de comprar cada vez mais coisas.
 
Está mais que provado que, as crianças precisam de atenção, de pais com quem possam conversar, aprender, desenvolver competências e emoções, mas instituiu-se a ideia de que, «as crianças não têm paciência para as conversas dos adultos, que querem estar só com os seus pares e daí por diante».
 
As crianças precisam da base emocional parental e de acrescentar as demais áreas de vida em função desse suporte afectivo, é a posição dos entendidos que não têm dúvidas face ao papel dos pais no desenvolvimento dos mais novos.
 
Fala-se ainda pouco no assunto, mas tal como a mãe assume um papel de elevada importância no desenvolvimento, também o pai é uma figura de extrema relevância no processo, pois está e estará sempre associado à imagem da força, do carinho, da protecção em termos sociais e da preparação para os novos desafios. 
 
A criança vê o pai como o seu exemplo, como um líder, como uma referência de prestígio e educação, como um lutador que é capaz de proteger a sua família, como uma referência que a prepara para o mundo. 
 
Por outro lado, a mãe é o porto-seguro, o aconchego, o carinho, a compreensão, a imagem da aceitação, do ensino, da preparação para a vida a partir da sua essência e valores que transmite. A mãe é a confidente, o apoio para a incerteza, enquanto que o pai é a procura do desafio e a garantia de que é possível arriscar.
 
Neste sentido, podemos compreender por que razão os nossos jovens se podem sentir mais rejeitados em termos sociais, com mais medos e ansiedade, pois a presença dos pais, nem sempre é clara e com tempo para esse imperioso desenvolvimento.
 
Não perdendo de vista o assunto central deste apontamento, ser amado ou rejeitado pelos pais afecta o desenvolvimento da personalidade nas crianças, num processo que perdura até à idade adulta.
Na prática, isso significa que as nossas relações na infância, especialmente com os pais e outras figuras de referência, moldam as características da nossa personalidade.
 
“Em meio século de pesquisa internacional, nenhum outro tipo de experiência demonstrou um efeito tão forte e consistente sobre a personalidade e o desenvolvimento da personalidade como a experiência da rejeição, especialmente pelos pais na infância”, disse o coautor de um estudo, Ronald Rohner, da Universidade de Connecticut (EUA).
 
O mesmo cientista realçou: “Crianças e adultos em todos os lugares tendem a responder exactamente da mesma maneira quando se sentem rejeitados pelos seus cuidadores e outras figuras de apego”.
 
Perante a rejeição, as crianças sentem-se exactamente como se tivessem apanhado um soco no estômago, só que a todo momento. As pesquisas realizadas sobre o assunto demonstram que, as mesmas partes do cérebro que são activadas quando as pessoas se sentem rejeitadas também são activadas quando sentem dor física. Porém, ao contrário da dor física, a dor psicológica da rejeição pode ser revivida por anos.
 
O facto dessas lembranças – da dor da rejeição – acompanharem as crianças a vida toda é o que acaba por influenciar na personalidade.
 
Os pesquisadores reavaliaram 36 estudos levados a cabo em diversos países, num trabalho que  envolveu mais de 10.000 participantes, e descobriram que as crianças rejeitadas sentem mais ansiedade e insegurança, e são mais propensas a serem hostis e agressivas.
 
A experiência de ser rejeitado faz com que essas pessoas tenham mais dificuldade em manter relações estáveis, seguras e de confiança com os outros, por exemplo, parceiros íntimos. Este facto deve-se ao medo de viver uma nova rejeição.
 
Os cientistas são unânimes em afirmar que, a culpa é tanto do pai como da mãe, uma vez que, em funções distintas, ambos são essenciais para um desenvolvimento sadio e que, nada serve continuar a projectar as culpas na falta de tempo de um dos cônjuges, quando a responsabilidade pelo afecto e educação dos filhos é de ambos, cada um à sua maneira.
 
Há entendidos que afirmam inclusivamente que, os filhos sofrem ainda mais com a rejeição do pai do que com a da mãe, isto porque, à medida em que vão crescendo e vão contactando com as exigências sociais, a marca de um pai que os prepara para a vida social, que os ensina a proteger dos perigos e a orientar desafios, não existe e dá sinais de medo e ansiedade. 
 
Essa rejeição vai ganhando expressão em cada etapa de vida, sobretudo quando consegue encontrar um suporte afectivo que, de certa forma, colmate a ausência da mãe.
 
De qualquer forma, não deve haver confusões: os pais são fundamentais para um desenvolvimento equilibrado e sadio.
 
Fátima Fernandes
 
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