Para o psiquiatra e psicoterapeuta brasileiro, Flávio Gikovate, “os opostos não se atraem e facilmente a relação acaba em divórcio”.
De acordo com este especialista, falecido em 2016 e que nos deixou mais de duas dezenas de livros, registos de palestras, entre outros apontamentos científicos, “o segredo para uma relação saudável, duradoura e feliz, é envolver-nos com uma pessoa parecida a nós”, isto porque quem casa com alguém muito diferente, acaba por não conseguir resistir a tantas discussões”.
Nas suas muitas entrevistas sobre o assunto, Flavio Gikovate explicou que efetivamente existe um magnetismo especial quando conhecemos uma pessoa oposta a nós, “mas durante o namoro, como não nos confrontamos com problemas diários e tudo é vivido com mais superficialidade, temos a sensação de que encontrámos ‘a pessoa certa’, mas no contacto diário e na convivência que uma relação exige, aos poucos, vamo-nos desiludindo e sufocando na procura de soluções para ultrapassar tantas divergências, o que não dá lugar a uma vida livre e feliz, muito menos a uma relação duradoura.
Numa publicação da Soma de Todos os Afetos lê-se que, pensamos pouco acerca da teoria dos opostos e até que ponto somos felizes ao lado de alguém que não tem interesses, valores e traços comuns a nós, mas é mesmo aí que reside a chave de um casamento saudável. E, tudo acontece porque ouvimos dizer que “os opostos se atrem e não colocamos em causa essa afirmação e, até que ponto a mesma nos faz sentido.
A este propósito, Flávio Gikovate disse que: “Acho muito importante assumir uma atitude crítica e de reflexão em torno dos problemas do amor, pois é a emoção que mais dor e sofrimento nos tem causado. São raras as pessoas realmente felizes e realizadas nessa área”
“Devem existir muitos erros e ignorância em relação ao amor. Aliás, é só de algumas décadas para cá que os profissionais de psicologia – e, ainda hoje, poucos entre eles – começaram a interessar-se pelo assunto, até então reservado aos poetas.
“Gostaria de expressar de modo categórico a minha opinião, fundamentada em mais de 45 anos de experiência como psicoterapeuta: os opostos atraem-se, mas nem por isso combinam bem”.
E prossegue: “Pessoas muito diferentes passam a vida a discutir entre si e irritando-se por tudo e por nada, porque as diferenças acabam por ganhar mais expressão do que a cumplicidade e os pontos em comum, o que inferniza o quotidiano”.
E o problema estende-se à educação dos filhos porque é impossível transmitir uma regra clara, por exemplo, quando os pais estão em desacordo. É pouco provável que os mais novos desfrutem de um ambiente familiar positivo com pais que não se entendem, que discutem muito e que não encontram consensos, alerta chamando a atenção também para outras áreas de vida essenciais como o orçamento familiar, a organização da casa, as prioridades, os tempos livres e daí por diante.
Os opostos atraem-se, mas na convivência diária, o conflito ganha mais expressão e torna tudo muito complicado, assegura o psiquiatra, exemplificando com a necessidade constante de um dos parceiros querer mudar o outro e “colocá-lo à sua maneira”, O marido quer moldar a mulher de acordo com o seu modo de ser; a mulher deseja que o marido a compreenda e se aproxime dos seus pontos de vista.
E, o medo de perder o encantamento amoroso dá lugar a que nenhum dos parceiros mude, o que alimenta a tensão no seio do casal e, como consequência, vive-se um ambiente familiar sem qualquer paz ou harmonia, sem entendimento, sem estabilidade e sempre à procura do amor inicial que os uniu. Como se conheceram como opostos, temem que, ao reduzir as diferenças, percam o interesse em permanecer juntos, explica o mesmo psiquiatra.
Com esta base, são muitos os casais, senão a maioria, que não alimenta uma relação tóxica, envolta em conflitos, desentendimentos que não chegam a lugar algum e que não sabem a razão pela qual ainda estão juntos.
Para Givokate ironicamente, a maioria dos parceiros amorosos diz-se feliz numa relação com uma pessoa oposta a si, mas nem pensa na sua qualidade de vida diária porque alimenta a ideia inicial de que começaram a amar-se precisamente porque são muito diferentes. E, até acreditam que, de outro modo, não estariam juntos e há tantos anos… Mas não conseguem desfrutar de umas boas férias em família, de manter uma casa organizada e ao gosto de ambos, os filhos são criados numa base incoerente, as discussões são constantes, mas sorriem e mostram-se muito felizes ao mundo que “abençoa” a teoria de que “os opostos se atraem”.
Flávio Giovokate convida à reflexão acerca da importância dessas diferenças na nossa vida e que visualizemos como será o futuro ao lado de alguém assim, pois só nesta perspetiva realista poderemos orientar melhor o nosso coração para uma pessoa mais parecida connosco e, logo, assegurar uma vida mais saudável, estável e tranquila.
“A principal causa do magnetismo entre opostos é, sem dúvida alguma, a falta ou diminuição da autoestima. Quando não estou satisfeita com o meu modo de ser, procurarei alguém que seja completamente diverso”.
“Se eu for introvertido e tímido, a tendência será apaixonar-me por uma pessoa extrovertida e desinibida. Inicialmente vivo um sonho e, em pouco tempo, uma desilusão que me irrita a toda a hora”, descreve o mesmo autor de mais de 25 obras.
Flávio Gikovate evidencia então a importância de procurarmos uma pessoa parecida a nós, que nos ajude a melhorar as qualidades, que esteja disponível para negociar, para conversar, que tenha gostos comuns e que as diferenças sejam um contributo para o enriquecimento da relação e não um pólo de conflito, isto porque, as discussões constantes “não são normais”, mas sim, uma consequência de estarmos com quem não possui gostos, valores e estilo de vida comum, dando lugar a uma separação cada vez maior entre os parceiros e tornando a convivência cada vez mais difícil.
“Quando os opostos se unem, tendencialmente alguém anula-se e o outro enaltece as suas qualidades, frisou.
Para finalizar, Gikovate garante que: “Liberdade é a capacidade de agir como pensamos”, o que ilustra a importância de estarmos com alguém que nos respeita, entende e acrescenta com as suas diferenças, mas acima de tudo, com a sua cumplicidade, pois só assim poderemos amar e ser amados em liberdade.