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Temos de cuidar diariamente do nosso “jardim interior”
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É inegável que, por muito que amemos alguém, devemos amarmo-nos e cuidar daquilo que somos e que sentimos.
 
Acredito que, só quando nos amamos temos capacidade para ver as nossas características espelhadas na outra pessoa e, a partir daí, desenvolver o que sentimos.
 
Não é por acaso que, passamos todo o nosso percurso a tentar conhecer-nos e a perceber aquilo que dá sentido à nossa vida. Bem sabemos que, para isso, precisamos de nos relacionar com os outros, de fazer escolhas, de passar por provas e provocações, sendo que o objetivo principal da nossa vida é descobrirmos quem somos, o que sentimos e ter a fabulosa capacidade de mostrar isso a alguém sentindo prazer em partilhar e em estar com o outro.
 
Alcançado este estado de beleza que nos torna pessoas, jamais o nosso processo está esgotado, pois tal como uma planta que terá de ser cuidada e de ter outras da mesma espécie em seu redor para fazer um bonito e colorido jardim, também o nosso mundo interior precisa de carinho e dedicação diária para que se preserve e acrescente.
 
Usei a imagem do jardim para explicar aquilo que se passa connosco humanos. Temos uma beleza interior que só se desenvolve com estímulos e cuidados diários, passando por diversas etapas e influências e, acima de tudo, experimentando aquilo que resulta mais ou menos em cada situação. Tal como no jardim, temos todo um processo pela frente até obter os resultados que pretendemos, mas é um prazer cuidar dele, aprender mais, colocar à prova e fazer novas experiências.
 
Da minha interpretação da vida retiro que, dentro de nós temos um jardim que se torna cada vez mais bonito quanto mais criatividade, empenho e dedicação tivermos. O nosso jardim será maior se acrescentarmos o de outra pessoa com os seus pontos em comum e diferenças e, ainda mais belo quando gostamos de cuidar do nosso e de ajudarmos o outro a cuidar do seu, ao mesmo tempo em que nos melhora a riqueza e diversidade daquilo que temos.
 
Tal como não nascemos a saber fazer um jardim, começamos pelo mais elementar que é jogar as sementes para a terra. Naturalmente, no meio de tantas que plantamos, muitas vão brotar e dar lugar a flores, mas não teremos um jardim se não as soubermos organizar e colocar nos lugares mais apropriados. O mesmo se passa com a nossa evolução enquanto humanos e enquanto pessoas. Primeiro temos de perceber o que temos e como se faz e depois passamos para a fase da qualificação e arrumação do que temos.
 
Para termos um jardim cuidado, temos de regar, cavar, podar e dar diferentes formas às nossas plantações. Temos uma tarefa exigente, mas prazerosa de cuidar e de ver os resultados e vamos acrescentando mais espécies ou variedades para embelezar o nosso canteiro.
 
São muitas as vezes em que temos de recorrer aos livros e às experiências de outras pessoas, pois tal como um jardineiro teve de aprender a sua tarefa, qualquer pessoa que queira cuidar do seu jardim deverá munir-se de conhecimentos para se assumir como tal.
 
Não está sozinho na tarefa porque existem muitas interpretações da mesma realidade, muitas teorias e experiências em torno dessa função. Tal como na jardinagem, há profissionais que nos ajudam tecnicamente a fazer melhor essa tarefa quando queremos passar ao lado do amadorismo, mas acima de tudo, temos de ter interesse na função e muita disponibilidade para entrar num percurso exigente e de dedicação quase diária.
 
Penso que é isso que se pretende com as relações humanas. Vamos aprendendo a relacionar-nos com os outros à medida em que estamos mais preparados para nos protegermos e para retirar as ervas daninhas que podem afetar a nossa vida. 
 
Selecionamos as pessoas que mais se aproximam da nossa forma de estar, de ser e de pensar em cada etapa de vida e, das várias relações que estabelecemos, aprendemos a viver com maior desembaraço e capacidade de sobrevivência. O mesmo se passa com o nosso jardim que, por não estar estático, temos de lhe dar atenção e ter algumas regras para que se preserve. Não podemos deixar de regar nos meses mais quentes, sob pena de as plantas morrerem e podemos até cuidar e, mesmo assim, nem todas resistirem à força dos ventos ou ao excesso de água, mas é um desafio constante que confere uma especial beleza à nossa vida.
 
Tal como na jardinagem a tentativa e erro são palavras de ordem, na nossa vida também. Acertamos umas vezes, falhamos outras, mas assumindo onde queremos chegar, acabamos por corrigir e por procurar novos motivos para continuar a aprender, afinal há tantas formas que se podem dar a um jardim, que certamente não nos vai faltar imaginação para cortarmos mais daqui e dali, colorirmos de outras cores, procurarmos algo novo e daí por diante. O fundamental é querer aprender, é ter curiosidade, interesse e permitir que o jardim ganhe os contornos do amor que temos dentro…
 
Fátima Fernandes
 
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