José Maria Pyrrait chegou a Vila Real de Santo António, no distrito de Faro, na segunda-feira, após cerca de 900 quilómetros percorridos em ‘stand up paddle’ desde Caminha, no distrito de Viana do Castelo.
A "travessia" era um sonho por cumprir, que surgiu de uma vontade de superação, tendo sido o percurso mais longo que já remou. Uma viagem que ficaria marcada pelo desaparecimento, no mar, de um grande amigo.
“Gosto de sair da minha zona de conforto, de puxar por mim e tinha uma grande vontade de passar a costa portuguesa a remar, porque é a forma [de a] conhecermos de uma maneira mais próxima e [por ser] algo que pode inspirar as pessoas, um bocadinho pela superação, pela resiliência e por mostrar que é possível sair de uma zona de conforto e fazer algo diferente. O impossível só existe dentro da nossa cabeça”, frisou à Lusa.
O desaparecimento do surfista britânico Arran Strong, de 27 anos, que acompanhava José Maria Pyrrait durante a etapa entre a Zambujeira do Mar e a praia de Monte Clérigo, em Aljezur, no Algarve, em 27 de julho, fica gravada.
Arran estava há alguns anos radicado em Portugal e era como um filho para José, a quem quis homenagear, forçando-se a terminar o percurso.
“Não foi só uma homenagem, foi mesmo um forçar-me a terminar, embora nos primeiros dias depois do acontecimento não estava com vontade nenhuma, [mas] eu sabia que ele ia ficar danado se eu não terminasse esta travessia, se ele sentisse que era por causa dele, então, insisti comigo próprio para recomeçar. Descansei uns dias, fizemos homenagem ao Arran, [no] próprio dia arranquei para perto da Arrifana e, no dia a seguir de manhã, já estava a remar”, revelou.
José acredita que o jovem surfista e mentorado esteve sempre consigo ao longo das restantes etapas, dando-lhe força, apesar dos momentos difíceis que nunca vai esquecer.
“Ao longo dos meus 51 anos de surf e de vida no mar salvei talvez centenas de pessoas. (…) O Arran, que era praticamente meu filho, não cheguei a tempo de o salvar, é a ironia da vida. Apesar de todas as pessoas que resgatei no mar, aquela que era mais importante para mim, não consegui, mas a vida é assim, há que aceitar, todos nós temos a nossa hora”, frisou.
Na véspera de assinalar o 61.º aniversário, e após 40 dias no mar, disse não ter sentido grandes desafios a nível físico, tendo percorrido uma média de 25 a 30 quilómetros diariamente.
“Vou ser muito sincero: a nível físico não senti, [apesar] do cansaço, mas eu comecei a treinar artes marciais com cinco anos e sempre tive um lema para a minha vida, que é estar sempre pronto, portanto, estava preparado e mais do que preparado para esta epopeia”, garantiu.
Ao longo dos cerca de 900 quilómetros percorridos, José contou com apoio no mar, mas sobretudo em terra, destacando a generosidade das pessoas que o acolheram de norte a sul do país.
“É impossível não falar no apoio que tive ao longo do percurso, [ficámos] sempre muito bem instalados e nunca pagámos uma estadia. Fomos sempre convidados, tivemos desde casas particulares, de amigos, desconhecidos, hóteis, foi incrível. As pessoas, realmente, abriram-nos os braços, (…) aliás, foi uma das coisas bonitas desta travessia foram as pessoas”, enfatizou.
Ao longo de todo o percurso foram realizadas filmagens com o objetivo de realizar um documentário, sendo o próximo desafio a concluir, ainda que tenha confessado estar já a sentir falta do mar.
“Não me sinto muito confortável a permanecer sempre na zona de conforto, gosto de me sentir vivo, ativo e fazer coisas novas e novos desafios. Um novo desafio virá por aí, mas agora estou muito focado em arranjar apoio financeiro para conseguir produzir o documentário, porque acredito que vai [ter] muito boa qualidade e [ser] muito interessante”, destacou.
José Maria Pyrrait acredita que o resultado final será, também ele, inspirador, não só pelo seu legado, mas também pelo legado de Arran Strong, que recordou.
“O maior legado que podemos deixar nesta vida é exatamente o de poder de inspirar e de tocar os outros. Por exemplo, apesar de ter morrido aos 27 anos, o Arran deixou um legado incrível, não um legado financeiro, mas um legado de inspiração, de vidas que tocou e de intensidade de vida. Com 27 anos viveu mais do que muitas pessoas com 80 e 90”, concluiu.