O projeto de requalificação da ribeira de Aljezur já está em curso, mas a Arriba - Associação de Defesa do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, denunciou em comunicado, que uma das medidas descritas no projeto, passa pela aplicação de um herbicida de nome Piton verde, nas canas existentes na ribeira, "herbicida composto por um químico associado a casos de cancro cuja aplicação será repetida 3 vezes, ao longo de 5 quilómetros e até 10 metros de largura das margens da ribeira".
A associação explica que o glifosato é proibido em muitos países europeus e que a legislação portuguesa exige permissão especial para o uso deste químico perto de cursos de água, acrescentando, que uso é proibido onde o glifosato pode contaminar os recursos hídricos subterrâneos, reportando-se à ficha de dados de segurança do herbicida: "não permitir a contaminação do sistema de drenagem público ou de águas superficiais ou subterrâneas".
A Arriba recorre também à opinião de vários biólogos onde "afirmam que os potenciais danos do uso de herbicida perto de um ecossistema único que abriga lontras, aves guarda-rios e espécies de peixes em perigo crítico, são em grande parte desconhecidos, cuja aplicação pode causar danos substanciais, aliado também ao uso de máquinas desproporcionalmente grandes nas margens das ribeiras", lê-se no documento.
A associação diz estar frontalmente contra a utilização do referido químico, por ser "potencialmente cancerígeno".
Contactado pelo Algarve Primeiro, o vereador do Ambiente da autarquia de Aljezur, António Carvalho, disse estranhar que a Arriba «nunca tenha falado com a Câmara, investigado o processo de forma a saber o que estava em causa ou participado em nenhuma sessão de esclarecimento que fizemos, tendo apenas emitido um comunicado com informações erradas».
Quanto à aplicação do glifosato, o vereador explicou que se trata de um produto que «ainda é vendido em todas as drogarias do país», tendo a autarquia feito ao longo dos anos várias intervenções na ribeira, «umas mais acertadas outras menos acertadas, mas o objetivo tem sido devolver a ribeira às pessoas e limpar aquilo que são as invasoras. Acontece que cada vez que os serviços faziam essas intervenções, as canas ganhavam maior dimensão, também sabemos que se fossem feitos cortes sucessivos talvez de mês a mês ou de três em três meses, a cana ficava sem nutrientes e secava por si própria, mas seria necessário esperar mais do que um ano e meio para que o objetivo fosse alcançado. A verdade é que nós cortávamos as canas e passados 6 meses estavam piores do que antes», salientou.

Para ultrapassar o problema, foi repensada uma outra forma de atuação, para erradicar definitivamente as canas do local: «convém que se diga que o projeto vai mais além do que erradicar as canas, estamos também a criar a possibilidade da visitação das pessoas à ribeira, com a instalação de algumas infraestruturas, e nos locais onde a cana vai ser retirada, vão ser plantadas espécies autóctones para consolidar a margem e devolver aquilo que são as espécies normais daquele espaço, porque o equilíbrio ambiental estava a ser posto em causa».
Foi com essa preocupação que a autarquia consultou a Agência Portuguesa do Ambiente - APA-ARH, «que considerou tratar-se de um projeto muito interessante, para mudarmos as práticas de manutenção das ribeiras e, portanto, é a primeira vez no Algarve, que se vai utilizar aquele tipo de técnicas de engenharia ambiental». Quanto à utilização do produto, o vereador assume que «não é a nossa primeira escolha, nem é a primeira escolha de ninguém, inclusivamente os próprios pareceres referem e ressalvam isso, mas entre termos aqui uma situação em que o equilíbrio ambiental estava a ser posto em causa, e utilizarmos cirurgicamente um produto que em contacto com a água não é tão agressivo, optámos por esta solução». O responsável pelo pelouro do Ambiente, assume que a operação terá algum impacto, «mas não é aquilo que se diz, nem vai pôr em causa toda a fauna e flora que existe na ribeira, volto a frisar que não se trata da melhor opção, mas sim a mais eficaz, até que este tipo de aplicação já foi feita noutros locais semelhantes no norte do país, não é uma situação totalmente virgem, a não ser no Algarve, além da vasta experiência quer da parte do projetista, quer da empresa que ganhou o concurso, e posso confirmar ainda que não vão andar máquinas a pulverizar o produto, é um processo que vai ser feito manualmente».

Sobre o projeto, António Carvalho disse que o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas - ICNF, condicionou o seu parecer, e em resposta, a Câmara Municipal de Aljezur contratou uma empresa que irá monitorizar os solos e a água, antes, durante e após a aplicação do produto, «obviamente que estaremos atentos aos resultados». Sobre a existência de um estudo de impacto ambiental, afirmou que não é obrigatório para este tipo de projetos. Os trabalhos que já arrancaram, com um prazo de execução 90 dias, têm um custo de 168 mil euros e são financiados pelo Fundo Ambiental do Ministério do Ambiente. Numa primeira fase, procedeu-se ao corte endémico de todas as canas, depois houve a utilização de roçadoras em colónias onda a máquina não pôde cortar, também já estão a ser aplicadas práticas de engenharia ambiental e nalguns locais foram reutilizados troncos cortados de algumas árvores existentes para fazer os taludes e na fortificação de locais de passagem. Na fase seguinte, será feita a aplicação do glifosato, que se prevê que aconteça no início do ano, se as condições climatéricas forem favoráveis. Serão efetuadas três aplicações sucessivas do produto a cada 15 dias, estimando-se que a intervenção esteja concluída em meados de fevereiro.
