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Quando os filhos saem de casa, deixam de ser “mandados” pelos pais
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Vou abordar este assunto de forma muito simples e direta para que possa ser útil para os muitos pais e filhos que me seguem neste jornal.
 
É fundamental compreender que, a relação entre pais e filhos não ocorre em pé de igualdade porque os pais são a autoridade e os filhos lhes devem obediência até que sigam o seu percurso com a maturidade necessária para o fazerem.
 
Tal como os pais não devem expulsar os filhos do seu teto enquanto não reúnem as necessárias condições para se autonomizarem e seguirem a sua vida, também os filhos devem entender o seu percurso como um processo de criação desses mecanismos de defesa e proteção para serem capazes de se posicionarem e desembaraçarem no mundo. O processo deve funcionar de forma conjunta e articulada, mas cada um deve ir definindo o seu papel.Os pais já fizeram um percurso anterior aos filhos e têm as suas experiências consolidadas, os filhos estão a aprender e a descobrir o mundo com a ajuda dos pais, mas através de si mesmos. Precisam de se relacionar com os seus amigos, com outros adultos para poderem formar a sua autonomia através da comparação com os outros.
 
Os pais orientam, mas não são “donos da verdade”, muito menos podem encarar os filhos como sua propriedade. No mesmo espaço de educação, devem dar a necessária liberdade e tempo para que os mais novos aprendam e criem as suas opiniões e posições sobre os mais variados assuntos. Existe uma margem que os pais não podem afetar; a individualidade e o respeito pela sua privacidade. Os filhos não contam tudo aos pais e nem lhes deve ser exigido isso, mas sim que aprendam a pensar acerca dos seus comportamentos e que peçam ajuda e compreensão quando precisam.
 
Os pais devem permitir que os filhos cresçam e se desenvolvam fazendo as suas descobertas e conquistas, enquanto que os filhos têm de lutar por si para chegarem à maturidade. É um trabalho conjunto que, quando corre bem, por volta dos 25 anos, os filhos estão preparados para enfrentar adultos desafios e para se confrontarem com uma vida estável e equilibrada, mas tal não acontece com o passar dos anos, ocorre com um trabalho afetivo, mas exigente por parte dos pais e que é aceite pelos filhos que, a partir dos valores que lhe são fornecidos compreendem o seu percurso.
 
Não se trata de “mandar”, mas sim de orientar. Os filhos acatam o que os pais lhes dizem, mas naturalmente vão sempre acrescentar algo a essa orientação porque são indivíduos, por que se estão a formar como pessoas únicas e especiais. De forma alguma os filhos vão fazer tudo como os pais lhes ensinam. Isso até seria uma profunda falta de respeito e uma anulação da sua condição enquanto pessoas, mas sim seguir aquele conjunto de normas, regras e valores que lhes foram transmitidos desde o momento em que nasceram. Ai mesmo tempo, vão alimentar a dimensão afetiva com os pais que lhes dão esses sentimentos.
 
Uma vez que os filhos estão prontos para enfrentar o mundo sozinhos, os pais deixam de ter essa função de orientação para passarem a estar disponíveis para o afeto e para a relação que os filhos pretendam estabelecer com eles. Os filhos é que vão avaliar a qualidade da relação que têm com os pais e decidir como é que se vão relacionar com os pais.
 
Uma vez atingida a maioridade dos filhos, os pais têm de confiar naquilo que lhes transmitiram e na qualidade da educação que lhes deram e esperar que eles voltem a si afetivamente, pois certamente que já não lhes vão perguntar o mesmo que faziam nas etapas anteriores. É uma oportunidade para pais e filhos evoluírem e, para que não se perca este fio condutor, os pais têm de encontrar sempre um sentido para as suas vidas ao mesmo tempo em que orientam os filhos, sob pena de não aceitarem e respeitarem a autonomia dos filhos.
 
É importante que este processo ocorra durante todo o percurso dos filhos e que os pais se vão habituando à ideia de que “não são donos” dos filhos, pois só assim serão capazes de os respeitar nas diferentes fases de vida, mas dando-lhes sempre o mesmo grau de respeito inicial.
 
Acredito que, uma relação de pais e filhos só sobrevive quando existe respeito de parte a parte, quando ambos se envolvem também afetivamente na relação e ambos conseguem compreender o percurso.
 
O filho sabe o papel dos pais na sua vida e estes sabem o que o filho representa para si e a importância de se fazer pessoa, de ser adulto, de ser responsável pela sua vida. Isto é uma relação saudável e harmoniosa como me costumam pedir os nossos leitores.
 
Os pais têm de confiar na qualidade da educação que dão aos seus filhos para poderem valorizar-lhes as escolhas e comportamentos. Os filhos têm de sentir que os pais os amam, mas que fazem a sua vida, tal como lhes exigiram sempre, daí se tratar de uma relação aberta, afetiva e para a vida que resulta de uma boa relação entre quem teve a autoridade e a vai perdendo à medida em que deixa de ser necessário esse papel e quem assume que tem o destino da sua vida nas mãos, mas que amará e será sempre amado pelos pais.
 
Acredito que só assim deixaremos de ter idosos ao abandono, pois a gratidão que os filhos vão sentir pelos pais, será suficiente para manter uma relação de qualidade até ao fim do percurso dos mais velhos.
 
Fátima Fernandes
 
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